Category: Ceptismo e Ateismo

Umhas pequenas reflexons sobre as violaçons de nenos pola Igreja

De primeiras, deixemos de falar de “abusos” como remedo políticamente correcto do que acontece: som violaçons de crianças. E em muitos casos violaçons sistemáticas, múltiplos e com todos os agravantes possíveis: abuso de posiçom de poder, ameaças, assalto psicológico, conspiraçom com outros para facilitar os abusos, a sua prolongaçom no tempo e a sua ocultaçom. Empreguemos as palavras certas, com toda a sua dureza, falemos de violaçons.

Fora dessa questom de nomenclatura dos factos vem a minha reflexom. Entre os presuntos implicados nas tramas de ocultaçom das violaçons está o próprio chefe supremo da Igreja Católica. Existem suspeitas mais que fundadas de que Bieito XVI, Joseph Ratzinger, no seu cargo de prefeito da Congregaçom para a Doutrina da Fe (Antiga Inquisiçom) obviou denúncias, cartas e comunicados de vários responsáveis regionais da sua organizaçom  sobre as violaçons e abusos que cometiam sacerdotes. Contra as legislaçons italiana, alemá ou qualquer outra na que se topasse Ratzinger e os sacerdotes abusadores, este decidiu calar e obviar o seu dever legal de denunciar os factos. Acreditando que as regras privadas da sua organizaçom, o Direito Canónico, estavam sobre as “leis terrenas”.  Isso é encobrimento, e qualquer outra pessoa seria investigada por isso. Sempre que nom tivesse o poder, os quartos e a influência necessárias para esquivar a justiça. E Bieito XVI acredita que essa é a sua situaçom.

Os defensores do obscurecimento dos vergonhentos factos que continuam a saltar na palestra pública dim que, ainda de existirem provas da implicaçom do Papa nesses delitos, este é um chefe de estado e polo tanto goza de imunidade total polo Tratado de Viena. Que as articulaçons desse tratado fossem obviados pola ONU, e sobretodo polos EUA, no caso de chefes de estado como Ceauşescu, Noriega ou a Ṣaddām parece nom importar. Tampouco que o Vaticano nom seja um estado reconhecido internacionalmente de jeito formal por muitas naçons, e em muitos casos o “reconhecimento diplomático” realiza-se a través de missons especiais nom comparáveis com embaixadas diplomáticas. Que falemos formalmente dumha monarquia teocrática absolutista que surpreendentemente goza de licença para participar em instituiçons democráticas internacionais nom parece chocar. Obvia-se a sua carência de todas as características dum estado convencional: controle das suas fronteiras, seguridade interna, recursos de subsistência… até a água depende de Itália! Em fim, que a entidade como estado da Cidade do Vaticano é umha excepçom das leis internacionais. Eliminam-se todas as condiçons necessárias para ser um estado reconhecido, mas mantenhem-se todas as vantagens que interessam à ICAR: fiscalidade própria e imunidade para os seus cargos teocráticos.

Já som várias as iniciativas que querem dilucidar as responsabilidades de Bieito XVI, e os seus antecessores e outros membros da Igreja, nesta campanha de décadas para o encobrimento dos abusos e a protecçom dos violadores. Richard Dawkins quere-o sentar ante os tribunais internacionais por Crimes contra a Humanidade. Os  estados onde se cometem os abusos -isto é, quase todos os estados do mundo onde a Igreja Católica tem algumha presença, pois os crimes tenhem demonstraçom a sua dimensom pandémica- escudam-se na já citada imunidade dos altos cargos da ICAR,  abduzindo que a via legal nom é possível ao se tratar de representantes dum “estado soberano”.  Mas ao empregar esse argumento de relaçons “estado-estado” estám destapando toda a hipocrisia da situaçom do Vaticano e o Papa: Se as condiçons da diplomacia  impedem um tratamento  judicial, entom essas mesmas condiçons obrigam a um tratamento diplomático. Se tam altos mandatários dumha outra naçom estivessem manchados por escândalos de tal calibre no território doutros estados, os respectivos governos nom tardariam em pedirem explicaçons e depuraçons de responsabilidades. Mas isso nom acontece no caso do Vaticano.

Para redondear o paradoxo estes dias Tarcisio Bertone um membro da oligarquia auto-electiva do Estado Vaticano, isto é um membro da cúria catedralícia, afirmou que as violaçons cometidas por todo o mundo polos seus subordinados som causados pola sua condiçom de homossexuais -obviando todo processo lógico e racional, e esquecendo da quantidade enorme de abusos de sacerdotes com nenas-. Isto é, o secretário de estado dumha naçom “diplomáticamente reconhecida” liga homossexualidade e pederastia, acusando implícitamente os homossexuais de “inflitrarem” as filas da sua organizaçom-estado-empresa… e nengum estado reage diplomáticamente.

Vêem o duplo jogo?

Postscriptum: França já reagiu… a baixo nível.

O calote das Power Balance: Nada novo

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Por desgraça (para ti) pode ser o teu dia

Hoje pode ser o teu

Se nom acreditas nas noçons mais básicas da química.

Se nom entendes os conceitos de átomos e moléculas.

Se achas que as bactérias e os vírus nom existem.

Se nom percebes nem os mais simples processos do metabolismo.

Se cuidas que todo o que sabemos da Biologia está errado.

Se para ti cousas como o número de Avogadro soam a chinês.

Se os conceitos mais básicos das Matemáticas som totalmente alheios ao teu pensamento.

Se todo isso do ADN, o ARN, os linfocitos, os anticorpos… nom che vai.

Se 200 anos de avanço científico e racional som para ti desprezáveis.

Se 200 anos de analises, scanners, vacinas, salubridade, dietética, medicamentos nom tenhem importância.

Se as probas, as analises de duplo-cego, os centos de estudos som para ti morralha.

Mas, sobretodo, se és um caloteiro que desfruta jogando com a vida da gente vendendo água com açúcar.

Entom parabéns, hoje é o teu dia. O “Dia Europeu da Homeopatia”.

Kennedy, Lincoln e a Lei de “Seguridade da evidência conspiracional”

O anumerismo: “E que eu sou de letras”

Um grande divulgador da Ciência, concretamente da Matemática, é o americano John Allen Paulos. Ele é professor de Matemáticas na universidade de Philadelphia e o seu trabalho  académico está centrado no estudo da lógica matemática e na teoria das probabilidades, mas é conhecido internacionalmente polo seu esforço  divulgativo contra o “analfabetismo matemático”. O seu livro Innumeracy: Mathematical Illiteracy and its Consequences ( El Hombre Anumérico, cuido que nom há publicada traduçom na nossa língua) foi um Betseller no final da década dos 80, e nele falava do conceito de “anumerismo”, paralelo ao de analfabetismo, que atinge um grande sector da populaçom. O termo original em inglês foi acunhado por vez primeira polo físico, professor de ciências cognitivas e ganahador do Pulizter, Douglas Hofstadter ¹ como a falta de habilidades básicas para trabalhar com números e conceitos matemáticos: Nom só somar, restar e as outras operaçons básicas da Álgebra, aliás o cálculo de probabilidades, o manejo das escalas de magnitudes, os conceitos básicos das teorias de de jogos, etc.

Paulos falava no seu livro do contraste entre o estigma social que representa o analfabetismo -total e funcional- e como algumhas pessoas -até algumhas de grande sucesso social- declaram até “estarem orgulhosas” do seu pouco conhecimento matemático. Esta falta de interesse -continua Paulos- leva a que essas pessoas tenham incapacidade para interpretarem e reproduzirem notícias, assim como as interpretar com cepticismo, julgar adequadamente as relaçons económicas -tanto globais como pessoais, cair na “falácia de Montecarlo” ² quando apostarem, pobre estimaçom do risco dos eventos e sobretodo: maior tendência a acreditarem em pseudociências e teorias da conspiraçom. Destacava o autor a facilidade com que os inventores de conspiraçons e “histórias” alternativas empregam a pobre formaçom estatística da gente para justificar as teorias mais delirantes. E sobre isto queria falar hoje.

As vidas (nom tam) paralelas de Kennedy e Lincon

Cecais seja o exemplo mais claro de “estranha coincidência” que se repete umha e outra vez no saber popular. O mistério é apresentado como segue:

Abraham Lincoln foi elegido para o Congresso dos EUA em 1846 e J.F. Kennedy em 1946. Lincoln foi presidente em 1846 e J.F. Kennedy em 1946. Os apelidos Kennedy e Lincoln tenhem sete letras. Os dous forom disparados umha sexta feira, e na cabeça. A secretária de Kennedy chamava-se Lincoln e a de Lincoln, Kennedy. Os seus sucessores eram pessoas dos estados do Sul e ambos apelidavam-se Johnson: Andrew Jounson, nascera em 1808 e Lyndon B. Jounson em 1908. O assassino de Lincoln, John Wilkes Booth nasceu em 1839 e o assassino de Kennedy, Lee Harvey Oswald em 1939; ambos forom conhecidos polos seus três nomes, que somam quinze letras e ambos eram também do Sul. Booth atirou num teatro e foi capturado num armazém, e Oswald desde um armazém até um teatro. E os dous forom assassinados antes dos seus juízos. Umha semana antes do disparo Lincoln estivo em Monroe, Maryland; umha semana antes do disparo Kennedy estivo em “Marilyn, Monroe”.

Como Paulos fai notar em muitas das suas o bravos se tomamos dou eventos, lugares ou pessoas, as que quiger o leitor, é seguro que toparemos algum tipo de “coincidência”. Realmente nom existe nengumha regra fixa para determinar porque umha coincidência é importante e umha diferença nom: A coincidências das datas de nascimento é importante no caso dos assassinos e sucessores mas nom coincide no caso dos assassinados, entom nom se resenha. é o que se chama”Lei da Evidência Conspiracional”: quando construímos um mito ficamos com os dados que se ajustarem ao nosso conceito de “coincidência” e rejeitamos os que discordarem.

Umha vez que temos umha série de essas “coincidências” as seguintes vam ganhando força na mente do interlocutor, por acumulaçom, mas umha vez a falácia do jogador.

Mas analisemos as cousas polo miudo as “coincidências”, já que estamos:

  • Os períodos de 100 anos:

Nom há nada extraordinário em que dous sucessos políticos (como as eleiçons para o Congresso e a Presidência  ou vitais (assassinatos e nascimentos) de duas pessoas estejam separados por períodos de 100 anos.Ou nom mais de estarem separados por 96 ou 104. A divisom dos anos em grupos de 100 baseia-se em umha conveniência cultural e social, mais nada. Para a numeraçom empregamos um sistema decimal, e os grupos de dezenas e centenas som útiles polo jeito de  notaçom matemática que empregamos; se contássemos em base 12 cecais organizássemos os anos em grupos de 144. De facto outras culturas que tenhem outro jeito de contarem os números nom vem nada singular nos períodos centenários.

Um baixo conhecimento de lógica pode levar a pensar que ter sido elegidos para o Congresso e a Presidência com 100  anos de diferença pode ser umha coincidência extraordinária. Se o pensamos bem, se duas pessoas seguem a mesma carreira -a política- e as suas vidas estám separadas por X anos o normal é que os  sucessos importantes dessa carreira estejam separadas por X anos. Ademais, seguindo umha tradiçom  já estabelecida pola República Romana³ há mais de 2500 anos a carreira política “tem as suas idades” e prazos, o chamado cursus honorum. Mas Lincoln e Kennedy entraram no Senado com 92 anos de diferença, entom esse dado nom se sinala. Tampouco coincidem as datas dos seus nascimentos e mortes, dados que sim parecem importantes no caso dos sucessores e assassinos.

Aliás, alguns desses períodos som falsos: Booth nasceu realmente em 1838.

  • Os números e os nomes:
  • Paulos e outros fam notar que os apelidos e 7 letras de origem sajona som bastante comuns nos EUA, assim que essa coincidência nom é de estranhar. Também a estatística di que a a distribuiçom de nome-segundo nome-apelido adoita ser de 5 de media para cada elemento, assim que a soma dos nomes dos assassinos é o esperável, nom algo anedótico. Chamar os assassinos afamados – nom só de presidentes- polo seu nome é umha convençom jornalística dos media americanos, igual que o de nom empregar -ou ponher só a inicial- no caso dos políticos. De facto os jornais da época de Lincoln referiam o seu assassino como “J. Wilkes Booth”, e só anos depois dos factos impujo-se o nome completo.

    Johnson é um apelido terrívelmente comum nos EUA, assim que tampouco há nada de “estranho” na coincidência dos nomes dos sucessores dos dous políticos. Também quando se referem ao nome das secretárias os conspiranoicos nom dim quantos secretários e assistentes pessoais tinha cada um deles. E tendo em conta relevância do apelido Lincoln, podemos assegurar que Kennedy nom escolheu essa secretária entre outras pola força do apelido? Muitas vezes o que parece coincidência nom o é, e só parece quando temos umha mostra segada dos dados. Recentes investigaçons duvidam que Lincoln tivesse tal secretária, assim que outra parte do mito que cai.

  • A conexom do Sul
  • De verdade é umha surpresa que dous presidentes do Norte levassem como companheiros de bilhete de votaçom dous vice-presidentes do Sul? Depois das últimas eleiçons americanas nom nos ficou claro como é o sistema eleitoral americano e as suas tradiçons? A eleiçom dum vice-presidente nom é um processo “aleatório” nunca, e depende dos objectivos e simpatias eleitorais.
    John Wilkes Booth nasceu realmente em Maryland, que como máximo pode ser chamado de “estado fronteira” na Guerra Civil. O ḿáximo que se pode dizer que ele era simpatizante sudista.

  • As mortes dos assassinados e os assassinos
  • Na versom original da conspiraçom ressaltam que os dous presidentes morreram dum disparo na cabeça: Se você fosse matar alguém, desde mui perto -Lincoln- ou desde longe com um rifle -Kennedy- onde dispararia? Um tiro na cabeça é a norma nestes casos. Também se destaca que os magnicidios foram numha sexta- feira, porém a morte de Lincoln nom chegou até o sábado, isso nom se destaca.
    Resumir a perseguiçom, complexa e long, de Booth como “disparar num teatro e rematar numha granja” é mui singelo. Realmente rematou num secadeiro de tabaco, e nom foi “assassinado antes do juízo”, realmente negou-se a depor as armas e morreu no confronto com a polícia.

  • A piada final
  • O jogo de palavras com Marylin e Maryland é engraçado… se nom fosse porque a actriz morrera um ano antes do assassinato de Kennedy.

    Seguridade da evidência conspiracional

    Como podemos ver estas construçons de mitos urbanos baseiam-se tanto em dados falsos, jogos como simbolismo subjectivo dos espaços de tempo e os nomes dos lugares, e sobretodo na acumulaçom dessas “evidências” que por força do número levam a pensar que existe umha “coincidência”. A mente humana está preparada para topar padrons em difrentes situaçons, ferramenta fundamental para a nossa sobrevivência mas que também cria essas ilusons. Realmente, de pormos os dados no seu contexto real seriamos quem de ver que nom há nada de estranho. Som centos os feitos vitais entre os dous personagens que nom coincidem e que nom se remitem nessas composiçons conspirativas.

    Mas umha vez vemos que os mitos e as lendas estám fundamentados na ignorância de quem acredita nelas.

    Notas

    ¹ Filho de Robert Hofstadter, físico ganhador dum prémio Nobel polos seus estudos na dispersom de electrons que permitiram avançar no conhecimento da estrutura dos nucleons.
    ² Também conhecida como “falácia do jogador” consistem em assumir que o comportamento passado dum sucesso aleatório vai influir nos futuros resultados. Assim há gente que acredita em que jogando o mesmo número na loteria sempre tem mais possibilidades de sair. Ou que se num sorteio saiu um número no dia anterior este tem menos possibilidades de sair no do dia seguinte, etc.
    ³ De facto no Reino de Roma, antes do 508 A.C., já existia umha idade fixa para entrar na política das assembleias de cada tribo.

    Lobsang Rampa, o encanador de Plymton e a boa imprensa

    Embora a história de Cyril Henry Hoskins é um clássico dos calotes espirituais descobertos e denunciados há décadas por umha boa investigaçom, ainda hoje sobrevive no imaginário místico de muita gente. Para mostra hoje amanhá, num descanso do estudo da biblioteca, pudem ver como umha rapariga nova levava em empréstimo o livro co que começou a história que vos quero contar.

    Umha “biografia” de sucesso

    Em 1956 a editora americana Doubleday and Company ¹-responsável na sua alongada história de publicar obras de Anne Rice, Murakami ou Bradbury- e a inglesa Secker & Warburg ² sacavam do prelo um livro intitulado The Third Eye (O terceiro olho). Apresentava a obra como umha autobiografia dum monge budista chamado Tuesday Lobsang Rampa. O livro narrava a educaçom espiritual dum filho da nobreça tibetana, adestrado num mosteiro budista durante o reinado do 13º Dalai Lama no começo do século XX. A criança demonstra rapidamente umha “iluminaçom” especial, memorizando o conteúdo do Kangyur ² com poucos anos. O personagem percorre um caminho teológico e político, implicado nos eventos prévios à invasom do Tibete pola China.

    Entre os factos mais destacáveis do livro está umha cerimónia de trepanaçom cirúrgica na que os monges abrem um buraco na fronte de Lobsang Rampa para lhe outorgar a capacidade de ver as “auras” e intençons das pessoas. Como se introduze na corte do Dalai Lama e adverte a Thubten Gyatso das intençons reais dos emissários chineses. O livro também relata um encontro co célebre tibetólogo Sir Charles Alfred Bel – que Rampa descreve com condescendência-, Yetis ou umha múmia do próprio protagonista numha anterior encarnaçom, monges voando em zorras, gatos místicos que protegiam as ermitas dos ladrons e viagens místicas onde falava da “corda dourada” que une o corpo físico e o espírito. Noutra cerimónia revelam-lhe que outro planeta impactou a Terra em tempos primordiais, sendo responsável da elevaçom geográfica do Tibete.

    O editor da obra afirmou na publicidade que figera todo o possível para autentificar o manuscrito, mas que “nom chegara a umha conclusom segura”. Porém a promoçom oficial esqueceu esses detalhes e com rapidez converteu-se numha das obras mais vendidas do ano. Em pouco tempo estava nas prateleiras de todos os precursores dos movimentos “alternativos” dos anos 60 e citado umha e outra vez em todas as publicaçons místicas e para-anormais da época.

    As investigaçons de Heinrich Harrer e Clifford Burgess

    Desde o primeiro momento os experto em cultura tibetana dixeram que a obra era umha fraude. Que pouco ou nada do que reflectia o livro tinha que ver com as doutrinas reais do budismo. Um grupo de estudosos decidiu começar umha investigaçom académica e policial sobre a fraude. No grupo estava incluído Heinrich Harrer (foto esquerda), conhecido atleta e geógrafo austríaco e autor de Sete anos no Tibete, amigo pessoal do 14º Dalai Lama e um dos ocidentais que mais contacto tivera com a vida na Lhasa prévia à ocupaçom chinesa. Também chamou a atençom de Fra’ Andrew Bertie, historiador e Soberano Príncipe e Grande Mestre da Ordem Militar de Malta até 2008, por citar só algum.

    Heinrich Harrer (direita), por médio do seu próprio editor Hart–Davis, tentou concertar umha reuniom com o monge, que também se afirmava doutor de medicina pola Universidade de Tchong-k’ing. A resposta que obtivo foi que o místico estava em retiro espiritual após o grande sucesso da sua obra, preparando umha continuaçom. Ante essa contrariedade o grupo contratou os serviços dum detective de Liverpool, Clifford Burgess.

    Este nom tardou em localizar o verdadeiro autor: Cyril Henry Hoskins. Era o filho dum encanador de Plympton, Inglaterra. Depois de trabalhar uns anos co pais entrou numha empresa de fabricaçom de material cirúrgico e começou a ter gosto polo ocultismo e mudou o seu nome para Kuan-suo em 1948, nom sem antes pelar a cabeça e deixar crescer a barba. Pouco depois foi despedido da empresa e vagou por vários dos ambientes místicos da ilha. Depois mudou-se para Irlanda onde desligou por completo da sua família e amigos, casou com umha enfermeira também interessada na parafernalia ocultista e escreveu a obra que o levaria à fama. Em nengum momento até entom saiu das Ilhas. E foi alá onde foi confrontado por Burgess, que quijo saber como calhava o seu passado como encanador e as suas supostas ensinanças em Lhasa. A resposta de Cyril foi que ele nom era mais essa pessoa, que em 1947 fora contactado polo espirito do monge -morto já- que lhe explicara que tinha necessidade de continuar com a sua missom de proteger o Tibete, agora desde a Inglaterra. Murada o nome seguindo as suas ordens e desligara de amigos e família para “fazer mais singela a transiçom de espíritos”. Depois dum acidente com contusom cerebral incluída – em palavras do próprio Cyril/Lonbsan umha caída desde umha arvore mentres tentava fotografar um moucho (sic)- o espírito do encanador marchou cara as alturas estelares -canso da sua vida- e o monge budista tomou o controle . A publicaçom da novela -e das continuaçons- era parte da la labor proselita que tinha como missom.

    Cando menos era original. Claro que quando foi confrontado com Harrer, outros estudosos fluentes em tibetano também foi rápido para dizer que “tinha um bloqueio mental para nom falar tibetano que era fundamental para o sucesso da transmigraçom”.

    As conclusons da investigaçom de Burgess publicadas no Daily Mail em Fevereiro de 1958. O artigo tivo muita difusom, e reduziu bastante as vendas do calote de Cyril, mas nom impediu que as suas seguintes obras -que continuavam com a história de Rampa-tivessem vendas suficientes como para permitir-lhe viver do conto.

    Quando os expertos falam mal… passamos deles

    Um feito curioso é que duas editoriais prestigiosas publicassem como legítima umha obra tam fraudulenta. De facto o editor inglês enviou cópias do manuscrito a várias eminências sobre o Tibete, e todas respostaram que página por página o livro contradizia tanto a teologia budista como a história conhecida e registrada dessa época no Tibete.

    Entre os muitos erros estava a interpretaçom literal do conceito budista do terceiro olho como umha operaçom de trepanaçom ou falar da “corda dourada” nas viagens espirituais, um conceito místico mui velho sim… mas do ocultismo e misticismo exclusivamente ocidental. Tampouco é verdade que os novícios budistas tenham que decorar o Kangyur, como o Coram nas tradiçons islamitas, tanto polo seu exagerado volume como que é umha obra de consulta pontual que nom se emprega como base de doutrina. Ou que os tibetanos nom tomassem como nome o do dia do seu nascimento (Disso “Tuesday”). Que Sir Charles Bel nom visitara Lhasa até 1920, dez anos depois do passamento do 13º Dalai Lama era um detalhe menor.

    O número de especialistas que recomendaram a Secker & Warburg nom publicar a obra – polo bem da sua reputaçom como editora séria- ou cando menos deixar claro que era pura ficçom é interminável: Ademais dos já citados Heinrich Harrer, Fra’ Andrew Bertie também falaram Marco Pallis -figura senlheira dos estudos tibetanos- ou até Hugh E. Richardson ! Até Leopold Fischer, antropólogo e sanscritólogo austriaco que se converteria ao hinduísmo advaita sob o nome Agehananda Bharat afirmava numha carta à sociedade de estudos tibetanos em 1974:

    “I was suspicious before I opened the wrapper: the “third eye” smacked of Blavatskyan and post-Blavatskyan hogwash. The first two pages convinced me the writer was not a Tibetan, the next ten that he had never been either in Tibet or India, and that he knew absolutely nothing about Buddhism of any form, Tibetan or other. The cat was out of the bag very soon, when the “Lama”, reflecting on some cataclysmic situation in his invented past, mused, “for we know there is a God.” A Buddhist makes many statements of a puzzling order at times, and he may utter many contradictions; but this statement he will not make, unless perhaps — I am trying hard to find a possible exception — he is a nominal Nisei Buddhist in Seattle, Washington, who somehow gets into Sunday school at age eleven and doesn’t really know what he is talking about.

    Every page bespeaks the utter ignorance of the author of anything that has to do with Buddhism as practiced and Buddhism as a belief system in Tibet or elsewhere. But the book also shows a shrewd intuition into what millions of people want to hear. Monks and neophytes flying through the mysterious breeze on enormous kites; golden images in hidden cells, representing earlier incarnations of the man who views them; arcane surgery in the skull to open up the eye of wisdom; tales about the dangers of mystical training and initiation — in a Western world so desperately seeking for the mysterious…

    Nom só demostrava ignorância total dos conceitos budistas mais simples, aliás misturava conceitos da Theosofia victoriana mais pobre!

    Ainda assim, depois de todos esses avisos de verdadeiros expertos… a publicaçom saiu. O que nom di muito das editoras da época, predecessores das actuais que nom tenhem escrúpulos em publicar panfletos obcurantistas dos Rampa de turno.

    Lobsang-Cyril depois do escândalo: Há quem acredita em qualquer cousa

    A começos dos 70 Cyril emigro ao Canadá. Mantivo até a sua morte a sua versom da história. Tivo tempo de escrever 30 livros mais, todos eles no campo do “oculto”. Continuou as aventuras da sua anterior encarnaçom e até tivo oportunidade narrar a sua visita a Venus (My Visit to Venus) acompanhado de extraterrestres budistas. Só os levitantes monges da Terra podiam aceder a essas naves, pois “estavam feitas de antimatéria”. Mas se calhar a sua obra mais delirante foi <em>Living with The Lama</em> segundo ele , ditada polo seu gato siamês.

    Nos anos seguintes tivo tempo de ser tarotista, vidente, ufólogo, medium… até o seu passamento em 1981. Eu acredito firmemente em que nalgum momento o seu espirito topará novo corpo -se nom o fixo já- para continuar a escrever literatura-lixo.

    Por mui engraçada que resulta a história do lama Lobsang Rampa quando se conhecem todos os dados nom podemos esquecer que a sua obra foi co-responsável da onda de misticismo que aniquilou quase por completo a capacidade de pensamento logico dumha geraçom do mundo ocidental durante toda a década dos 60. Que a dia de hoje ainda se vende a sua obra como real, como guia espiritual, que dúzias de páginas web defendem a sua figura, e que caloteiros disfarçados de místicos – ou ainda pior místicos que acreditam no calote original- seguem a empregar os delírios de pobre tolo de Cyril.

    Pessoalmente aguardo que a rapariga que levou o livro esta manhá da biblioteca fixo-o para botar uns risos, com conhecimento da natureza da obra, e nom como parte da sua “formaçom espiritual”.

    Deixem-me sonhar.

    Notas:
    ¹ Doubleday foi durante muitos anos a editora em língua inglesa com maior tiragem. Hoje forma parte do gigante editorial Random House. Alguns dos leitores “mui dos noventa” lembrará com carinho como Elaine, da sitcom Seinfeild. dizia que o seu trabalho ideal seria nessa editorial.

    ² Sim, a de Orwell, Boris Souvarine e Simone de Beauvoir. E hoje também parte de Random House.

    ³ O Kangyur (As Palavras transcritas) é um cânone difuso de textos sagrados budistas formado por traduçons do sânscrito das palavras de Siddharta Buda e umha miríada de tratados, comentários, escritos doutrinais e demais. Nom existe um índice claro de que livros inclui, e depende muito de cada versom do budismo existente.

    Ou 關索, nome chinês dum dos guerreiros da épica História dos Três Reinos (三国演义) de Luo Guanzhong. Umha das obras mestras da literatura histórica mundial escrita no século XIV, e como tanta literatura chinesa mui desconhecida em ocidente. Kuan-suo era um dos guerreiros do Reino de Shu, o mais ocidental dos três. Cada menos é um nome “curioso” para um monge budista tibetano.

    A ordem dos acontecimentos nom fica clara em nengumha fonte. Há quem di que o golpe foi no 47 quando ainda vivia em Inglaterra e foi o começo do processo de “conversom” no lama. Isso sim, todas as versons coincidem que a arvore era um abeto.

    “O derradeiro inglês em Lhasa”. Diplomático e estudante da cultura tibetana que foi literalmente o último inglês -e representante do governo- em abandonar a cidade antes da invasom chinesa.

    Venderias a tua alma ao Dianho?

    Essa é a pergunta que fai Richard Wiseman na última entrada do seu blog. A pergunta é muito simples e tem como intençom final estudar até que ponto o contexto religioso e mitológico no que vivemos afeita em temas que racionalmente som claros. Assim que ante esta frase:

    Eu ___________________ concordo com que após o meu passamento o dianho fique com a minha alma para a sua condena eterna.

    Eu evidentemente concordo. Segundo o 99,9% das religions que acreditam numha condenaçom depois da morte eu já estou perdido, assim que… . E por cada deus que podam imaginar que condenaria a minha alma eu podo imaginar outro que, nalgumha lógica divina incomprensível, considerará isso passo fundamental para a salvaçom. E vocês? Assinariam? De ser sim a resposta, que sentimentos tenhem depois de fazê-lo? E de ser nom, porquê?

    A (falsa) Carta do Chefe Índio Seattle

    Esta é umha traduçom dum artigo de Mauricio-José Schwarz sobre um dos muitos mitos do mundo pseudoecologista, a chamada “Carta do Chefe Índio Seattle”.  A razom que me levou a dar difusom a este documento é a observaçom da facilidade com a que os velenos da religiosidade, a mitomania e o espiritualismo  entram pola porta dos movimentos “ecologistas”, “naturalistas”, “defensoras das terras” ou das “tribos”.  A verdadeira ecologia, como destaca Schwarz, nasce da Ciência, do materialismo, do pensamento herdado do Iluminismo e que nos tirou da Idade das Tevras -da última e das que existiram antes-. A consciência do equilíbrio do mundo no que vivemos nom pode ser um sentimento “natural” ou primário, senom o resultado da analise profunda própria do avanço do pensamento científico.

    Se calhar o exemplo perfeito, como anota também o autor do texto, está na velenosa mensagem que transmite o novo filme de sucesso: Avatar.  O personagem da doutora Grace Augustine, interpretada por Sigourney  Weaver está “perto da verdade” com o seu achegamento racional, mas só o protagonista -o heroi branco que aprende dos “bons selvagens” e que os lidera- que aceita a falsa mitologia espiritual dos Na’vi pode “perceber” a “realidade”. Que os próprios indígenas nom entendam realmente como funciona a sua biologia e que nom há umha deusa, mas umha rede de informaçom, mensurável e estudável, nom importa.  Com todo, isto dai para outra entrada, deixo-os com o genial artigo.

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    O CONTO DA CARTA DO CHEFE SEATTLE

    Artigo original publicado sob o título “El Cuento de la Carta del Jefe Seattle ”  no blogue El retorno de los Charlatanes em 06-02-2010 obra de Mauricio-José Schwarz . Diistribuido sob licença Creative Commons de atribuiçom. Traduçom para O demo me leve sob as mesmas licenças.

    Um elemento fundamental da decoraçom de interiores dos ecomisántropos, aos que alguém com delicios mau génio alcuma os “fundambientalistas”, as lojas de herbolaria e outros espaços mais ou menos religiosos é um cartaz com a “Carta do Chefe Seattle”. Esses cartazes, em Espanha, geralmente podem-se adquirir em feirons ambulantes, em postos levados por astutos indígenas equatorianos, bolivianos e peruanos que, sabendo que sua cultura nom tem tanto charme entre as classes médias “ecologicamente concientizadas”, disfarçam-se de siouxes, apaches, Blackfoot, algonquinos, dacotas, hopis,iroqueses ou qualquer outra das mais de 50 tribos de indígenas norte-americanos para escalpelar seus ingénuos clientes, aproveitando a sua difusa consciência de culpabilidade.

    As páginas web do autoproclamado “movimento ecologista” costumam albergar umha cópia deste venerado texto. Pode vê-la em Veoverde, na página do Colectivo Ecologista Guelaya de Melilla, na página dos amáveis rapazes de Terrorismo ambiental ( Da-lhe ferro!) que num arrebatamento de sinceridade chama o documento “um dos mais preciados polos ecologistas”, o qual se confirma com o aparecimento da carta em Ecopolítica, no “Movimiento Mundial por los Bosques Tropicales” e em n-mil páginas mais de newage, misantropia, autoflagelaçom e pseudoecología (1).

    Suponho que chegados a este ponto, perante tantas ligaçons, já leu você a “Carta do Chefe Seattle”. Como é evidente, resulta assombroso que um habitante de princípios do século XIX manejasse os conceitos de ecologia que exprime a carta. A extinçom das espécies por acçom humana nom era conhecida entom, e nem sequer tinha ocorrido a trágica mingua do bisom americano que disparou a consciência conservacionista contra fins do século XIX.

    Se isto parece estranho deve-se, singelamente, a que esta carta NOM a escreveu o chefe Seattle, que dá seu nome à conhecida cidade do estado de Washington.

    A história do Chefe Seattle

    Si’ahl (2), a quem os brancos que colonizaram os Estados Unidos chamaram “Seattle”, era um índio duwamish nascido ao redor de 1780 e morrido o 7 de junho de 1866, que foi chefe da sua tribo e dos squamish. A sua lenda como guerreiro e líder forja-se em guerras nom contra os brancos, mas contra outras tribos índias, como os chemakum e os s’klallam. (O cartaz habitual nom mostra esta imagem que vê você à esquerda, a única imagem existente de Si’ahl, tomada num ano dantes do seu passamento, senom umha idealizaçom ignorante que o representa com um penacho de guerra próprio dos sioux ou lakota, e pouco acaído num pacifista como o que nos conta a lenda. Nalgumha ocasiom parece que simplesmente usaram umha foto do chefe lakota Nuvem Vermelha… total, todos os índios som iguais, nom som?)

    Si’ahl, homem do seu tempo e de seu povo, isto é, representante da sua cultura e nom da dos ocidentais pseudoecologistas, possuía escravos produto de suas vitórias na guerra, e tomou várias esposas, como correspondia a um chefe. Nada disto é criticável, pois era o normal no seu mundo, e julga-lo com as normas do nosso é, quando menos, jogar sujo.

    Como o é desvirtuar-lo para o ajustar às ideias próprias.

    Para 1850, Si’ahl perdeu influência ante o fortalecimento de Patkanim, chefe das tribos snoqualmoo e snohomish, que conseguiu jogar Si’ahl e a sua gente dos seus tradicionais espaços de recolhida de ameijas, que era a sua principal actividade (cá surpreendera-se mais dum que acha que as mais de 50 tribos de indígenas norte-americanos eram caçadores de bisons, animais que só existiam nas grandes chairas, umha faixa que percorre os EUA no centro, desde México até boa parte do Canadá). Dado que nunca saiu da Sonda de Puget, provavelmente Si’*ahl nom viu um bisom na sua vida, era chefe de umha tribo de mariscadores sitos no extremo norte da Costa Leste dos Estados Unidos, de modo que a frase da suposta carta “Vi mil bisons apodrecer na chaira” é literalmente impossível. (Já nisto, a continuaçom “deixados polo Homem Branco que os tinha matado desde um comboio que passava” também nom cola: o comboio chegou a Seattle 14 anos depois a morte do chefe.) O caso é que, expulsado das suas terras, Si’*ahl conheceu a David Swinson “Doc” Maynard, médico e pioneiro que chegou à zona como empresário madeireiro, e em 1852 construiu ali a sua chouça de madeira fundando, de facto, a cidade de Seattle.

    O índio e o branco derom-se bem. Maynard, que acreditava na defesa dos direitos dos índios (sem que interferisse com os negócios, porém na sua época via-se-lhe como um tipo “raro” por se preocupar polos nativos) convenceu os colonos da zona de que mudassem o nome de seu assentamento para “Seattle” em troques dum pagamento anual para o chefe compensando-lhe assim as moléstias que lhe causaria ao seu espírito, segundo as crenças de sua cultura, que se pronunciasse o seu nome depois de finado. Maynard também ajudou a negociar a paz com Patkanim. Como resultado, ambos chefes mantiveram-se à margem da Batalha de Seattle, do 26 de junho de 1856, quando várias tribos atacaram os brancos.

    Esta história, de novo, nem é rara no marco das conquistas em América nem representa traiçom algumha. Os índios norte-americanos nom se viam como umha unidade, senom que viviam em permanente luta com outras tribos, e para um chefe o importante era que sua gente estivesse bem, e que às outras tribos lhes dessem com um pau nom era nescessáriamente assunto seu salvo quando formavam federaçons, muitas vezes como mecanismo de defesa contra os vorazes colonos e o seu maquinario militar. Por isso mesmo, quando se lhes atribuiu umha reserva indígena, Si’ahl negou-se a levar a sua gente porque a sua principal preocupaçom era que se os duwamish se misturavam com os sonomish, haveria derramamento de sangue.

    O discurso de Si’ahl/Seattle

    O chefe dos duwamish era conhecido nom só por ser inusualmente alto (fala-se de 1,80 metros e de que os colonos o alcunhavam de “O Grande”), mas por ser um excelente orador.

    Numha data nom determinada, mas acredita-se que foi o 11 de Março de 1854, o governador Isaac Ingalls Stevens convocou a umha reuniom para debaterem a rendiçom ou venta da terra dos índios aos colonos brancos. Após que Stevens explicara sua missom, falou Si’ahl. Diz-se que pôs a mão sobre a cabeça do bem mais pequeno governador e falou com grande dignidade durante longo momento.

    Ninguém sabe exactamente que dixo.

    Si’*ahl falou no idioma lushootseed, alguém traduziu desse idioma à fala chinook, umha língua franca do oeste de Estados Unidos formada por diversas línguas ameríndias, inglês e francês, e alguém mais traduziu ao inglês para que Stevens se inteirasse do que tinha dito Si’ahl.

    Salto ao 29 de Outubro de 1887. O já idoso doutor Henry A. Smith, médico, poeta, legislador e colono, que compartilhava a simpatia de Maynard polos índios, e que assegurava ter estado presente durante o discurso de Si’ahl, publicava no Seattle Sunday Star umha peça intitulada “Scraps from a diary” (Retalhos dum diário) que, dixo, se baseava nas notas que tomou do discurso do chefe Seattle e, afirmou, era só um fragmento do discurso. Nele, o chefe Si’ahl agradecia os brancos a sua generosidade, exigia que qualquer tratado garantisse o acesso dos índios a seus antigos cemitérios e fazia umha comparaçom entre o deus dos brancos e seus deuses.

    A versom completa do que Henry Smith diz que anotou resumindo do que dixo o tradutor ao inglês que dixo o tradutor do chinook que dixo Si’ahl pode-se ler aqui. Certo que Smith dizia falar duwamish, mas é de duvidar pois quando Si’*ahl fixo a sua alocuçom, mal levava um ano na zona, onde chegou procedente de Ohio.

    O escrito por Smith nom é, pois, de confiança, ainda que poda realmente capturar parte do sentimento e discurso de Si’ahl. Esta dúvida sustenta-se ademais no facto de que ninguém visse nunca as notas ou diário de Smith, e que este era um admirador rendido de Si’*ahl (descreveu-no dizendo: “”O velho Chefe Seattle foi o maior índio que jamais tenha visto e, por longe, o de aspecto mais nobre . . . Quando se erguía para falar no Conselho ou para dar recomendaçons, todos os olhos voltavam-se para ele, e dos seus lábios surgiam sonoras e elocuentes sentenças pronunciadas com voz de tons profundos . . . Sua magnífica feitura era tam nobre como a dos mais cultivados chefes militares em comando das forças dum continente.”) e por tanto propenso a enfeitar a história, sobretodo três décadas depois, para engrandecer a figura dumha personagem admirada.

    Nunca saberemos que tam fiel foi Smith a Si’ahl.

    O que sim sabemos é que o que escreveu Smith e se reproduziu em várias ocasions nos anos seguintes, a fins do século XIX e princípios do XX, nom é o que nos oferece a frescura parva e barata do pseudoecologismo, e a movida newage e o ódio à civilizaçom… contada mediante Internet. O paradoxo nom deixa de ser notável.

    A carta… de Ted Perry

    Novo salto no tempo. Estamos a 22 de Abril de 1970 e o jovem professor de cinema da Universidade de Texas em Austin, Ted Perry, assiste à primeira celebraçom do “Dia da terra” no campus. Eram as primeiras auroras do ecologismo e a consciência planetária, e o académico clássico William Arrowsmith lê ante o público umha versom do discurso escrito por Smith actualizada por ele para a adaptar ao estilo combativo e as preocupaçons de elogio à década dos 60. A peça impacta nos presentes.

    Pouco depois, Ted Perry, como roteirista da Southern Baptist Radio and Television Commission, Comissom de Rádio e Televisom Bautista do Sur, umha empresa da Convençom Bautista do Sur, a maior igreja protestante dos Estados Unidos, afronta o repto de escrever um filme sobre a contaminaçom e a ecologia, chamada Home (Lar). Pede-lhe permissom a Arrowsmith para empregar a sua peça como base de seu roteiro e procede a escrever o que hoje conhecemos como “A carta do chefe Seattle”.

    Evidentemente, Ted Perry é um roteirista, nom um historiador, e por legítima licença dramática  nom poupa em anacronismos, em impossibilidades e em exageraçons bagoentas, além de empregar a linguagem do ecologismo de entom que nom é imaginável em ninguém de 1854. Mas nom o faz com objecto de enganar a ninguém: está a escrever umha peça de ficçom, que nunca se pensou para se apresentar como realidade, senom como pretexto para falar de factos reais desde umha perspectiva criativa. Vamos, Ted Perry escreveu também dous episódios dos Gummy Bears para Disney sem pretender convencer a ninguém de que realmente os ursinhos de gominola podem viver apaixonantes aventuras. E um episódio de “Os seis biônicos”. É ficçom para chamar a atençom sobre um problema rea,l nom é a realidade.

    No guiom de Perry, a carta recita-se sobre umha montagem de fragas e praias prístrinas e impolutas misturadas com feias imagens de contaminaçom. E ali sim jogavam um papel os “arames-que-falam” do telefone que Si’ahl nom puide conhecer pois inventou-se depois da sua morte. Como dixo o próprio Perry, “Nom comprovei a exatidom histórica do que escrevim”. Poucos roteiristas o fam. O que se propuxo Perry foi transladar o chefe Seattle o mundo moderno e imaginar o que diria, ponto. Que era fictício ficava claro ao final do filme, com o crédito “Escrito por Ted Perry”.

    Mas os produtores decidiram pôr “Pesquisado por Ted Perry”, dando traços de realidade à ficçom dum escritor.

    O que sim fez Perry, actualmente professor de cinema na universidade Middlebury, é tratar de que os seareiros do calote do chefe Seattle se inteirem de que estam a ser enganados, que as palavras de preocupaçom ecológica e de destruiçom do médio ambiente nom procedem dum índio (que no guiom de Perry se autonombra “selvagem”, quando certamente nom o era), mas dum roteirista ocidental preocupado polo médio ambiente. A ecologia e o conservacionismo como os conhecemos hoje som, a fim, um produto da ciência e o pensamento iluminista.

    Em 1992, a já poderosa organizaçom Dia da Terra, EUA (Earth Day, USA) enviou por correio a espurea carta a 6500 líderes religiosos. O autoproclamado dandy da ecologia, Al Gore, citou a carta no seu livro Earth in the balance.

    A mentira, consolidada, segue. Curiosamente, o descobridor do conto foi um historiador alemam especializado nos indígenas norteamericanos, Rudolph Kaiser, que identificou a Perry e publicou sua investigaçom nos anos 90.

    Hoje, felizmente, de procurarmos em Google “chief seattle letter”, acharemos que a maioria das ligaçons que aparecem primeiro mencionam a fraude, destacam a verdadeira personalidade do líder duwamish e referenciam a Ted Perry.

    Desafortunadamente, se procuramos “carta do chefe seattle”, em espanhol [Nota do tradutor: Ou em galego ou português], nom aparece nenhuma visom crítica e quase nada de informaçom sobre a fraude, só a repetiçom contínua das palavras escritas por Ted Perry. Nom as palavras dum “bom selvagem” ecologista apto para acougar as consciências da classe meia ocidental, senom as palavras dum jovem roteirista branco “verde”.

    Mas a fraude nom foi culpa do chefe Seattle, de Henry Smith nem de Ted Perry. Todos eles foram honestos com a sua visom e a sua realidade interna e externa. A fraude foi de quem, conhecendo os factos durante os últimos 20 anos, seguiram apresentando a “carta do chefe Seattle” como umha demonstraçom dos dogmas da seu peculiar religiom e política.

    E ao conhecer a vida e as palavras reais de Si’ahl, temos como sempre melhores motivos para respeitar a personagem, o líder,ao estatista responsável do seu povo, que quando se nos alimenta com um “índio de açúcar”, desumanizado e criado a imagem e semelhança dos delírios dos brancos ocidentais.

    Ou, em palavras de Ted Perry: Por que estamos tam dispostos a aceitar um texto como este se se lhe atribui a um nativo americano? É outro caso de pôr os nativos americanos num pedestal e nom nos responsabilizar de nossas próprias acçons?
    _______________________________________________________
    (1) É “pseudoecología” porque nom tem muito que ver com a ecologia, ramo da biologia que, lemos na Wikipedia, “estuda os seres vivos, o seu ambiente, a distribuiçom e abundância, como essas propriedades som afectadas pela interacçom entre os organismos e o seu ambiente”. A maioria dos activistas pseudoecológicos nom poderiam distinguir um blastómero dum acouraçado, menos ainda lhes interessa o que a ciência possa dizer sobre esses temas, senom que se ocupam, dizem e crêem, de “defender o ambiente” e de passagem atacar à humanidade, lamentar todas suas actividades, evitar a extinçom de animais bonitos como o urso panda (os animais feios tenhem menos cartaz) e sonhar com um passado ideal que nunca existiu, umha espécie de utopia pastoral como as que imaginou a novela pastoril, pletórica de bons selvagens dotados dumha consciência ecológica profundíssima e totalmente intuitiva… Algo bem como Avatar, que a isso deve parte do seu sucesso. Os verdadeiros ecologistas trabalham doutro modo, e baseiam-se em conhecimentos científicos sólidos dantes que em emoçonss baratas e liçons de moral religiosoide.

    (2) Usamos a forma “Si’ahl” no lugar das outras muitas propostas, como Seathl, Seahl, etc., porque é a que emprega a tribo duwamish para falar de seu nobre antergo. Curiosamente, na página dedicada a ele, a tribo nom faz mençom de discurso ou carta algumha, e a biografia referenciada ali, um documento de 20 páginas compilado polo tesoureiro da Junta directiva dos Serviços Tribais Duwamish, arroja-se razoáveis dúvidas sobre a versom de Henry Smith, mas a “Carta” popular entre os ecologistas também nom se menciona.

    Documentos para Apostasia e Cancelaçom de Dados

    Umha amiga pediu-me esta semana algo de informaçom sobre os processos de apostasia.  Assim que pensei em ponher a dispossiçom do público os documentos:

    Declaraçom de Apostasia

    Esta é umha declaraçom de Apostasia para apresentar no Bispado ou na parróquia de baptismo.  Nele um declara que o seu repúdio total à fe cristã,  submeter-se à autoridade do Papa e à comunhom com os membros da Igreja a ele sujeitos. É um procedimento que se baseia no direito canónico e que conleva a anotaçom no Livro de Baptismos sobre essa “condiçom espiritual”, também no na cópia do Arquivo Diocesano.  Lembrade que  com a sua própria lei na mao nom estades obrigados a nada mais: Só apresentar os dados sobre o vosso baptismo, cópia dum documento de identidade -por razons administrativas- e pista. Nom vos podem pedir nem umha declaraçom dum notário apostólico, nem falar com ninguem mais no bispado que o secretário ou o chanceler. E tampouco estades obrigados a entrega-lo no bispado correspondente à parróquia onde realizachedes o baptismo, com todo as cousas som mais rápidas se o entregades no vosso bispado de referência.  Lembrade sempre guardar umha cópia selada com a data de entrada.

    O procedimento nom tem uns tempos marcados, assim que nalgum momento enviaram umha carta notificando a anotaçom. A mim tardarom-me quase meio ano em 2005.

    Solicitude de Cancelaçom de Dados

    Este é o seguinte passo lógico, e o único com umha validez legal cívil. A declaraçom de Apostasia é algo simbólico, e sempre a recomendo, polo valor moral que tem. Mas onde verdadeiramente podemos exercer uns direitos inalienáveis é na protecçom dos nossos dados pessoais. Argumentando com a LOPD podemos conseguir que tenham que apagar toda referência à nossa pessoa em todos os arquivos da Igreja Católica. No formato deste documento fai-se referência aos arquivos do Livro de Baptismos e o Arquivo Diocesano do bispado que vos corresponda, mas se comungastedes, casastedes ou figestes a confirmaçom noutras tedes que incluir esses dados.

    Nisto sim que nom se podem negar, e em menos de 10 dias tenhem que enviar umha resposta ao vosso endereço de contacto, e estám obrigados por lei. Como no caso anterior lembrade guardar umha cópia selada.

    Contra a licença habitual dos conteúdos deste blogue os dous documentos som de Domínio Público, sem nenhum tipo de licença CC.

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    rute cortiço franco
    Ola, que tal? veras temos plenario da rede feminista este domingo e gostava l…
    13 jan (3 dias atrás)
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    Tawil alumr
    Ok! A ver se agora à tarde fago umha compilaçom dos documentos que tenho e ch…
    14 jan (2 dias atrás)
    Tawil alumrCarregando…
    14 jan (2 dias atrás)

    Tawil alumr

    para rute

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    Ok! A ver se agora à tarde fago umha compilaçom dos documentos que tenho e chos envio.
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    Tawil alumr
    A ver, anexo dous documentos e um pouco de informaçom. O primeiro é umha “dec…
    14 jan (2 dias atrás)
    Tawil alumrCarregando…
    14 jan (2 dias atrás)

    Tawil alumr

    para rute

    mostrar detalhes 14 jan (2 dias atrás)
    A ver, anexo dous documentos e um pouco de informaçom.

    O primeiro é umha “declaraçom de apostasia”. Tedes que ter claro que a apostasia é um termo do Direito Canónico, e polo tanto todo o que tem que ver com ela está regido por ele. A sua definiçom é: “o repúdio total à fé cristã, ou a recusa em submeter-se à autoridade do Papa ou à comunhom com os membros da Igreja a ele sujeitos” é um delito canónico que separa ao que o comete da Igreja, aliás é um delito de pensamento assim que tenho que dar-vos a boa nova: se pensades em declarar a vossa apostasia… já sodes apostatas! O que ides apresentar é entom umha “confessom” do vosso “delito” ante o Arcebispo, para que  faga contar. Por sodes assim de boas e nom queres enganar a ninguem ;). Nalguns sítios ponhem-se um pouco farrucos (America do Sul, Andaluzia, etc…) e pidem cousas como umha comparecência com o notário eclesiástico, ou umha parolada com o Bispo (!!) mas em Compostela nunca passou tal. E se nom querem tramitar assim tedes duas opçons: Insistir mais, com a sua própria lei na mao, ou bem passar ao seguinte ponto.

    Por outra banda existe o que se chama “Direito de Cancelaçom de Dados pessoais” que é um procedimento legal regido polo direito cívil e que se fai para que se eliminem todas as referências à vossas pessoa nos ficheiros da Igreja (especialmente o Livro de Baptismo e o Arquivo Histórico Diocesano). E exactamente o mesmo que passa quando tramitas umha baixa numha empresa de telefonia e nom queres que fiquem com nenhum dado teu para que nom che enviem publicidade. Até bem pouco a Igreja negava-se a eliminar esses dados porque afirmava que era um “registro de feitos históricos” e como tal nom se podia eliminar. Por sorte a LOPD e a Agencia de Protección de Datos emitirom o ano passado umha sentença que os obriga 😀

    Eu recomendo entregar as duas por muitas razons: A primeira porque os amolas bastante com tanto papel (^^), que assim empregas todos os recursos legais que tés, que lhes obrigas a realizar um trabalho inutil (primeiro anotar a tua apostasia, e depois apagar todos os teus dados :D)  e que tem mais peso simbólico.

    Ah! Também lembrar que até bem pouco pediam que o entregaras no Bispado correspondente à tua parróquia, ou ao próprio párroco, mas nada disso é legal. Qualquer representaçom administrativa da Igreja Católica (Isto é, o Bispo, o seu Chanceler ou qualquera dos seus secretários) no mundo tem que apandar e dar trámite a estes documentos.

    Para qualquer dúvida, telefone!

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    Tawil alumr
    Se anexo os arquivos melhor, nom? Nom sei onde metim a resoluçom a APD, envio…
    14 jan (2 dias atrás)
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    rute cortiço franco

    para mim

    mostrar detalhes 14 jan (2 dias atrás)
    obrigadissima!!


    From: tawilgz@gmail.com
    Date: Thu, 14 Jan 2010 19:24:41 +0100
    Subject: Re: apostatar
    To: dmarc88@hotmail.com

    Se anexo os arquivos melhor, nom?
    Nom sei onde metim a resoluçom a APD, envio-cho noutro momento, vale?

    Umha aperta, e já sabes, para qualquer cousa: Teleapostasia 645131244!

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    Provida=provida(t)

    igreja

    Dia de Carl Sagan: O pálido ponto azul

    Hoje é o Dia internacional de Carl Sagan, no quase 75 aniversário do seu nascimento. Um enorme divulgador que nos abriu as portas do Universo a muitos, e também nos ensinou a humildade necessária para olharmos o Cosmos. Se calhar este vídeo, o Pequeno Ponto Azul marcou a minha vida e a minha maneira de ver o mundo.

    Som as reflexons de Sagan sobre última fotografia do nosso planeta tirada pola sonda Voyager I quando abandonava o nosso sistema solar em 1990. Após 13 anos de percorrido entre os planetas e disposta a continuar a sua viagem (que ainda dura) até mais longe que qualquer outro engenho humano, e portando a nossa mensagem às estrelas.