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Livro digital, direitos de autor e Hyperion

Sabedes bem que eu sou umha pessoa que devorou durante a adolescência centos de títulos de ciência ficçom, impulsado pola minha tia materna que era umha autêntica fanática do género. Porém um “clássico moderno” que nom lim no seu momento foi a saga de Hyperion. Nom o lim por nenhumha razom em concreto, simplesmente nom caiu nas minhas maos no momento. Durante estas vacaçons de Natal topei umha versom em pastas brandas e saldei a minha conta com o primeiro livro da tetralogia. Confirmei o que muitos dizem: é umha das grandes obras de literatura de ficçom científica, e em geral umha grande homenagem a toda a literatura universal.

Poderia resenhar muitas cousas, mas chamou-me a atençom como Dan Simmons, o autor, retrata o sucesso editorial do poeta Martin Silenus com a sua obra sobre a Terra moribunda.

Quatro meses depois da publicaçom de “A Terra Moribunda” venderam-se  mais de dous mil cincocentos milhons de cópias impressa por fax, e podia-se aceder a umha versom abreviada e digitalizada na esfera de dados Entidade Visual e já tinha um contrato para um holofilme.

Lembremos que Simmons publicou Hyperion em 1989, e o que me surpreendeu é que daquela já amossou mais olho para o futuro editorial que os gerentes das editoras na nossa época digital. Também é justo dizer que Simmons, a pesar de criar um universo onde a Rede de Mundos une a centos de milheiros de milhons de pessoas com portais farcasters e onde as redes de dados som universais e o pessoal prefire aninhar nos braços digitas das IAs nom foi quem de desfazer da ideia de livro físico e assim falava de “milhons de cópias impressas por fax”

A editora do poeta é cínica até depois desse sucesso editorial, e informa-lhe que nom pode aguardar um êxito igual com os seus seguintes livros: A meirande parte da populaçom mundial acede directamente aos dados “sem ler”.

Martin, Martin, Martin, a populaçom de gente alfabetizada diminuiu constantemente desde os tempos de Gutenberg. No século vinte, menos do dous por cento da populaçom das chamadas democracias industrializadas lia um livro cada ano. E isso foi antes das máquinas inteligentes, das esferas de dados, e dos âmbitos de interfaze direita. Durante a Hégira, o noventa e oito por cento da populaçom da Hegemonia nom tinha razons para lerem nada. Assim que nom se molestavam em aprender. Hoje é pior. Há mais de cem mil milhonsde seres humanos na Rede de Mundos e menos do um por cento molesta-se em pedir cópias fax de material impresso, e muito menos em ler um livro.

Claro que no mundo de Simmons a transmissom de informaçom digital está completamente desligada do feito de ler, processo que no nosso mundo nom foi ainda completado. Mas também dai umha ideia da acertada prognose da novela. Para rematar o poeta está entristecido polas baixas vendas da sua novela, e pergunta à editora se as Inteligências Artificiais autoconscientes que conformam o TecnoNúcleo e que governam benevolamente a Hegemonia nom estavam interessadas. Ela espeta umha resposta que os editores do mundo real teriam que começar a entender:

-Nom puiemos vender exemplares ao TecnoNúcleo?
-Fixemo-lo -Informou Tyrena- Um. Os milhons de IAs que há lá cecais compartiram o livro em tempo real quando saiu por ultralinea. Os direitos de autor interestelares nom significam nada quando tratas com inteligências de silício.

Editora Txalaparta difunde na rede livro censurado sobre tortura no Estado Espanhol

Umha das muitas mentiras insistentes do Estado Espanhol, e dos média afins do regime, é a contínua negaçom da tortura no processo policial-judicial. A pesar dos milheiros de denúncias – quase 6.o00 nos últimos 10 anos- e dos informes de entidades internacionais  que denunciam que a agressom física e psicológica é ferramenta de uso comum na estratégia de estado a muitos níveis, todos os estamentos espanhois arrenegam da evidência. Porem, por muito que mintam e ocultem o facto é que o recurso da tortura é contínuo, sistemático e orgánico, bem como “arma antiterrorista” -porque na doutrina espanhola “contra o terrorismo todo vale”- bem como procedimento habitual em detençons e processos “menos extremos”. E quando alguém eleva a voz e denúncia, o estado e os média recorrem a um bem ensaiado manual de difamaçom e calúnia para ocultar a sua ignomínia: falam sem pudor dum “manual do terrorista” que converteria a denúncia da tortura numha ferramenta de “desprestígio”, e nom na desesperada chamada por ajuda que é.

A sociedade espanhola -e com isto falo desse estrato de gente baixo o governo do Estado espanhol que acredita estar numha democracia real,  sob um estado de direito e  garante dos direitos humanos. E que ademais acredita em que o maior perigo para eles é “la lacra de ETA”- é plenamente consciente da existência da tortura, porém nom existe nenhum remorso, e de existir é mínimo e matizado. Falsamente acreditam em que eles nom tenhem nada que temer, que as agressons, as violaçons, os “interrogatórios duros” som poucos, espalhados e só concentrados sobre os malvados etarras. A cortina de fume é tam eficaz, a mentira tam densa e aceitada que nom é preciso para eles o esforço de construírem um duplo-pensar orwelliano: podem aceitar a tortura porque nom conhecem o verdadeiro significado da palavra, nem a sua verdadeira magnitude em número de casos reais, porque é algo alheio. E sobretodo porque é algo que em última instância é útil para eles, para os proteger do coco do perigo terrorista construído polo aparelho do estado.  Essa é a terrível verdade: a tortura é tolerada porque é útil.

Todo isto e muito mais é o que o Xabier Makazaga denúncia na sua obra de referência Manual del torturador español. Um livro enchido dos dados da vergonha para Espanha, um volume que retrata polo miudo a estrategia do terror e da dor à que se adscrevem sem pestanejar as forças do estado. Caso por caso Makazaga desmonta o construto de falsidades que protegem, ocultam e justificam a tortura policial, sem que lhe trema o pulso no processo. Por isso, como qualquer livro bom, é umha ameaça para o estado das cousas. E por isso o binomio PSOE-PP procura desde há meses a sua destruçom. Já conseguiram banir, com um plam coordenado a todos os estratos do governo (estatal, autónimo e dos concelhos) que retirou o livro das prateleiras das bibliotecas, e pouco depois da das librarias. Um processo de censura feito à vista do público, sabendo que a sociedade está tam adurminhada e aparvada que nom reagirá, sequer com curiosidade ante “esse livro tam terrível”. Se os fieis à democracia espanhol se reuniram na praça para queimarem o livro fisicamente o resultado nom seria mui diferente.

Com todo nom se podem parabenizar tam aginha: Internet mudou todo, e fixo muito mais difícil a censura. A editora Txalaparta deu um passo valente, e com o prace do autor, publicou na aranheira umha versom descarregável da obra. Para que todo o mundo poda mergulhar nas suas páginas e horrorizar-se com a terrível verdade.  Assim que só podo recomendar a sua descarga e difussom máxima, contra todos os esforços de ocultaçom, contra todas as mentiras e contra todo o terror espanhol. Dous centos de páginas inegáveis e imprescindíveis. Fagam o esforço, acordem.

Os fungos de Yuggoth na nossa língua

O lugar era escuro e poeirento, meio perdido
Num labirinto de vielas junto aos molhes,
Cheirando a coisas raras trazidas de outros mares,
Envolto em estranhas névoas agitadas p’lo vento.

Uns vidros em losango, que a geada e o fumo velavam
Deixavam entrever pilhas de livros, como torcidas árvores
Desde o sobrado ao tecto – putrefacto amontoado
De sapiência antiga a baixo preço. Enfeitiçado

Entrei, e dum montão cheio de teias
Um cartapácio tirei e ao acaso o folheei,
Estremecendo ao ler palavras raras que pareciam
Esconder de olhares humanos um prodigioso segredo.

E então, quando o vendedor astuto em volta quis achar
Apenas um eco de gargalhadas pude encontrar.

Primeiro soneto de Os Fungos de Yuggoth H.P. Lovecraft

Nom conhecia esta traduçom à nossa lìngua dos sonetos de horror cósmico The Fungi from Yuggoth

Sirva como recomendaçom de hoje.

E de passo, coma sempre, recomendar o trabalho que estám a fazer os amigos de Urco Editora que já tenhem traducido algumha obra de Lovecraft e que na sua nova etapa prometem títulos magníficos. Ainda rematei o outro dia A Praga Escarlata, umha novela curta excelente, editada com as ilustraçons originais. Mui recomendável!

Philip K. Dick is dead, alas

Giving me a new idea is like handing a cretin a loaded gun, but I do thank you anyhow, bang, bang.
-Philip K. Dick numha carta a Patricia S. Warrick (1978)

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Umha cita sci-fi para o domingo

With that disappearance… came the end, the final end of Eternity
—And the beginning of Infinity.

The End of Eternity, Isaac Asimov.

Ridley Scott e ”The Forever War”

Isto só é umha pequena nota para um tema sobre o que quero escrever com mais tempo. Hoje chucei a nova de que Ridley Scott mercou os direitos para filmar umha adaptaçom de ”The Forever War” de  Joe Hadelman.  Pode ser a volta do directo de Alien e Blade Runner ao cinema de Sci-fi e bélico. E pessoalmente cuido que é o director ajeitado para a obra, sempre que nom prime os factores “espectaculares” sobre a trama estratégica e sobretodo os danos psicológicos causados pola guerra e as viagens relativistas.

Para fazer um resumo rápido, ”The Forever War” é a história dumha guerra, tam injusta e irracional como todas as guerras, entre a Terra e umhas entidades  inimigas. Ninguem sabe quem começou o conflito, ninguem comunicou co inimigo, só que ha Guerra é inevitável.  Os filhos da Terra som adestrados como soldados para lutarem no espaço e proteger a seu planeta, mas as batalhas tenhem lugar em afastados planetas e para chegarem até lá tenhem que empregar naves relativistas -que viagam perto da velocidade da luz-. Assim os soldados experimentam a dilataçom temporal  e quando voltam à Terra coa sua permissom cada poucos anos -para eles- topam com umha Terra  onde passarom os séculos, mas que segue a lutar nessa guerra eterna. A novela nom só retrata a irracionalidade da guerra, também dos efectos psicológicos da mesma, do dessarraigamento dos soldados quando nom som quem de se adaptar a -para eles- acelerada mudança nos costumes do seu planeta, e também necesidade de considerar que outros seres inteligentes podem nom ter o mesmo tipo de inteligência ca nós.  Para mim é umha obra genial, e umha das melhores novelas bélicas.

Por desgraça essa grande obra está ambientada num mundo de ficçom científica, que permite engadir o factor do estranhamento ante umha civilizaçom que muda diante dos olhos do soldado. Umha boa metáfora dos sentimentos dos militares americanos no Vietname ao voltarem ao seus país.  Mas para os popes da literatura e o cinema mundial a Sci-fi sempre será pulp, e por isso nom merece umha crítica no mesmo nível que literatura séria. Assim som ignoradas novelas coma esta, ou verdadeiras obras mestras da literatura, como Dune de Frank Herbert…

[Mais noutro momento ]

Arthur C. Clarke dead tomorrow

– I’m afraid. I’m afraid, Arthur…

P.D.: O titular nom é umha piada, e tampouco é original, mas as circunstáncias “horarias” (Finou em Colombo) da sua morte permitem que poidamos jogar coas palavras e fazer umha última homenagem a quem achegou o futuro até os nosso dias.

[Entrada  re-publicada após a caida de blogaliza]

Leitura para as festas

Para estas festas de Nadal tenho três livros para ler… e já rematei um:

-Ulvova myäry, de Arto Paasilina, na ediçom em galego de Rinoceronte (“O Muiñeiro Ouveador“)

-Les Croisades vues par les Arabes ,  de Amin Maalouf na ediçom espanhola de Altaya.

-“Rastrátchiki”  de alentin Katáiev, também editado por Rinoceronte (“O Desfalco“… “O Desfalque”)

O primeiro já o rematei na viagem desde Ponte Vedra, e como o anterior de Paasilinna editado por Rinoceronte, é umha delícia. O jeito que tem esse homem para fazer-nos empatizar com alguem que está tam afastado de nós -Com um muinheiro finês tolinho da cabeça-  é surpreendente.  E um dez para Rinoceronte por achegarema obra desse magnífico autor…

Primeira lei de Murphy do Bookcrossing

Se tés activado o serviço de alertas na caixa de correio-e de Bookcrossing para duas cidades, ceivaram livros em quantidades massivas -e chegaram avisos às dúzias- justo na cidade na que nom estás nesse momento.

Nom dou mais…

O primeiro dos monstros nom quixo saber nada mais. Sacou a Espada das Sete Estrelas e lançou contra o rostro do Peregrino um talho mortal. Por sorte o Grande Sabio, sósia do Ceu, bateu umha soa vez o coro e num intre a cova foi invadida por umha luz avermelhada e de um brilho extraordinário. A argalhada permitiu-lhe escapolir-se a fume de caroço da ladroeira. Os seus poderes eram tantos que este episódio nom foi para ele mais que um entretenimento. Era certo que ninguem dominava como Wu-Kung a arte das transformaços. Se entrou na choupana dos demos coa figura dumha velha, dela escapuliu diluindose no éter.

-Xī Yóu Jì, “Viagem a Poente” Anónimo chinês século XVI

 

Até aquí cheguei este ano. “As aventuras do Rei Mono” é um clássico da literatura chinesa (O Clássico), mui desconhecido no Ocidente. Conta as aventuras dum peregrino budista cara a Índia para obter manuscritos da sua religiom para iluminar o Imperio Chang por orde da Bodhisattva Guan Yin. Durante o caminho os deuses ponhem no seu serviço a quatro monstros para que limpem a sua vida “malvada” anterior. Entre eles o mais importa é o Rei Mono, Wu-Kung, O Peregrino, O Gran Sabia… um macaco langram e pendencienador com superpoderes cósmicos (Lembrade que nesse personagem inspirouse Akira Toriyama para criar a Son Goku).

 

A história está mui bem, sendo contamporánea de “El Quijote” tem um rimo mui superior, e a história (cecais pola novidade) engancha mais. Também tem múltiples niveis, como umha mitologia taoista e budista constente e chea de metáforas, o próprio livro é toda umha metáfora do processo de alquímia interna taoista… Assim que temos um livro histórico fundamental na literatural e um livro de mitologia todo em um. Se um fai umha leitura consultada e académica, desde umha prespectiva atea o tomo é abraiante.

 

Entom porque nom dou rematado o livro? Som 2300 páginas de papel de bíblia, pero tenho tragado cousas maiores (eis! Esse comentário!). A obra é mais ligeira que, por exemplo, “El Quijote”. Como a traduçom (em castelhano) nom emprega um vocabulário mediavalizante a leitura é mais cercana e agradável. Porém conserva esse aire de relato antigo, quando cada vez que o Rei Mono tem que se enfrentar com um monstro relata toda a sua história, méritos e batalhas anteriores. Também tem muitas referências culturais orientais pouco conhecidas. Fai dous anos que merquei o livro e a primeira vez papei as primeiras 350 páginas em pouco tempo, pero chegarom os exames e algumhas cousas mais e deixei aparcado o livro (sempre estou com três ou quatro assim que alguns caem por lógica). Coido que retomei a leitura em janeiro, como “livro para mirar entre livros”, e vai cousa dum mês aparquei-no de todo. Cheguei até a página 783 e por pouca vontade, leituras “mais rápidas” ou nom sei bem porque nom toquei mais o livro.

 

Agora chegam os exames de fim de curso e nom tenho tempo para a leitura, assim que as aventuras do Rei Mono e o Peregrino Chang ficam reservadas para o veram…