Crítica à falsa humildade

Estava escrevendo um comentario no blog de Mendinho e decatei-me de que já era mui longo, tanto que o melhor era fazer um post do tema.

É nova destes dias nos medios de comunicaçom a Concresso Internacional de Matemáticas. Em todas as novas que escuitei sobre o tema, em medias generalistas, repite-se que a “estrela” do Gram Simposium é o russo “Grisha” Perelman e a sua soluçom à Conjectura de Poincaré. Também se fala muito de que Perelman nom assistiu ao congresso, e o seu comportamento eremita e solitário, e nas últimas horas ruge-se que se lhe concedeu a Medalha Fields, o mais alto prémio no mundo das Matemáticas, e que ele rejeitou o galardom. Disse também que é um ejemplo de “humildade” (E nalgum caso tentando enfrentar isso à mítica “actitude de superioridade” dos cientistas), e eu penso que todo é umha parvada como umha casa, e que Perelman é um parvo e um mal cientista.
Sem falar da sua aportaçom às matemáticas a actitude de Perelman rejeitando a “glória” do prémio Field nom fai muito bem à comunidade de cientistas. Numha disciplina como as Matemáticas na que a Comunidade Científica empurra aos seus membros cara um comportamento de eremita, fomenta o estranhamento da realidade e a adopçom dum modelo de comportamento asocial que umha figura tam afamada rejeite compartir o seu tempo num simposium mundial com os seus colegas e difundir de jeito pessoal o seu trabalho é preocupante. E que os seus colegas fagam brincadeira do tema e digam que é “algo normal num matemático” é pior.

A Ciência actual cria froitos da colectividade e do trabalho conjunto dos cientistas, a única disciplina (e umha das fundamentais!) que segue promocionando a figura do investigador e genio semi-autista como um heroe é a Matemática. Dacordo que a predisposiçom mental que precisa as Matemáticas tende ao isolamento, mais nom se está perdendo a oportunidade de implementar novas formas de trabalho matemático? Evoluir dende a Ciência individual feita por “genios” (propria do século XIX) a um modelo no que as Comunidades Científicas fagam algo mais que fixar o paradigma a posteriori?

Diz os seus ex-companheiros do Steklov Institute que Perelman abandonou a sua cátedra nele e leva três anos vivindo coa sua nai em Sam Petersburgo, estranhado dos círculos científicos e sem entablar contacto com outros matemáticos. Emergeu do ostracismo uns anos depois com umha proprosta de soluçom para o Problema de Poincaré (Realmente para o mais geral que é a Conjectura da Geometrizaçom de Thurston), fizo umha pequenha campanha polos EUA e volveu ao seu retiro. Perelman rejeitou o prémio da European Mathematical Society e invitaçons de universidades de todo o mundo para falar do seu trabalhor, dar aulas magistrais e trabalhar em projectos do mais alto nivel. O comportamento asocial e pouco cortês de Grisha e pressentado como umha mostra da “excentricidade propria dos matemáticos”. Coido que nom é um excêntrico, é um tolo. Um génio tolo da caste da mitologia clássica da Ciência, como Grothendieck, ou outros. E também coido que a Ciência nom precisa de esses modelos de comportamento e que deve rejeita-los para sempre.

Na cultura comum que liga a todos os cientistas do mundo, sem ter em contra a sua origem geográfica, étnica ou “cultural”, as figuras dos “escêntricos” genios individuais som um referente mui forte. E na pouca história da Ciência que estudam os legos no tema fala-se da evoluçom da mesma como a sucessom de biografias de “Grandes Homens de Ciência”. Na mente colectiva vivem os mitos de gigantes com nomes e logros que dam vertigem: Gauss, Euler, o mesmo Poincaré… Cientistas ou matemáticos “para todo” que dominavam todos os campos do conhecimento humano, com capacidades quase “mágicas” e vidas proprias dum romance. Até bem entrado o século XX a mitologia destes “genios” é o comum denominador, e quando um individuo como Perelman fai um achado desta magnitude e perpetua a imagem deseguida os jornais, e os prorpios cientistas nom duvidam ao entronca-lo coa caste eterna dos “genios tolos”.

Pois nom, a historia da Ciência nom é essa. A Ciência nom se move polos designios dos egos superlativos duns poucos, se nom polo trabalho de séculos de toda umha comunidade de cientístas, muitos deles anónimos, que investigam, provam, desenham e repitem umha e outra vez os modelos, as teorias e as experiências. Dacordo que existiu umha era na que, pouco depois de sair da Idade da Escuridade promovida polas religions, o trabalho duns poucos cientistas ajudou a superar um milenio de superstiçom e crenças absurdas, pero a época na que um so ser humano podia fazer avançar à Ciência (e com elo à Humanidade) passou vai séculos.

Hoje a Ciência, mais que nunca, é froito do intercambio de informaçom entre os cientistas, das dinâmicas das CC (Comunidades científicas) e da posta em comum de habilidades e conhecementos. O trabalho de Perelman é froito de um século de investigaçom e acumulaçom de propósitos sobre a Conjectura de Poincaré, sobre os que o russo deu o último (e genial) passo. Niguem pom em dúvida a sua genialidade, pero também a ele lhe cumpria ser humilde (humildade de verdade) e admitir que nada do que fizo seria possível sem muitos outros matemáticos. Rejeitar o premio da sua Comunidade Científica nom é um acto de humildade, é pura presunçom, é Perelman quem tem que estar agradecido e rendir homenagem a todos os outros matemáticos, que configuram a rede sobre o que o seu trabalho pode nascer. Rejeitar conviver e intercambiar experiência cos outros iguais significa afirmar que o trabalho dum é independente e superior ao afam colectivo de milheiros de pessoas que adicam a sua vida ao mesmo. E isso é nojento.

Perelman nom é um genio, nem um humilde ermitanho. É um presuntuoso, um snob, um creido ou bem um tolo. E a Ciência nom se construe com individuos como esse.

  • By mendinho, Agosto 22, 2006 @ 7:18 p.m.

    Só tens de ver as roupas e o estilo de vida pobre de Perelman para saber que é um tolo antes do que um snob.

    Evidentemente a atitude de Perelman não faz muito bem à imagem da ciência. Isto é mais uma contribuição ao freakismo, mas, quer queiramos quer não, ele foi fiel ao seu estilo de vida, é a escolha dele, é o estilo de um matemático romântico. Até um certo ponto confesso que gosto dessa renúncia ao ego que hoje é quase impossível de encontrar nos cientistas.

    Há tempo que descobri que todo o sistema de papers (International Journals, Elsevier, Wiley,…) é uma verdadeira máfia: se estás numa universidade de prestígio publicas (ainda que seja uma merda) se estás numa universidade pobre não publicas. Também não há tal cooperação, porque cada equipa de cientistas gosta de ser o primeiro e lavar a fama e o dinheiro.

    A ciência não se constrói com um Perelman, o.k., mas Perelman vive numa universidade muito humilde, fez o que ninguém fez num século e agora não quere saber nada do dinheiro e defacto só á duas fotos dele em toda a naet: eu acredito na humildade (ou tolice) de Perelman.

  • By mendinho, Agosto 22, 2006 @ 7:21 p.m.

    Para o talibã ortográfico: e de facto só há duas fotos dele em toda a net. Agora sim!

  • By odemo, Agosto 22, 2006 @ 7:41 p.m.

    Eu sinceramente penso que, se o sistema actual tem falhas (que as tem, e muitas) e a aplicaçom da ciência colectiva está manchada polos egos individuas dos cientistas o feito de que um genio como Perelman perpetue essa imagem de pouco compromisso coa comunidade ao nom assistir .

    Também é certo que se ele actua “sendo fiel ao seu “estilo de vida” ou à sua toleria, aqueles que promocionam o seu comportamento como um ejemplo de genialidade fam mais dano. Perelman abandonou aos seus companheiros de projecto no meio dumha investigaçom, sem dar razons e esvaeceu-se do mundo académico durante três anos. E agora, nom participando no simposium nom fai mais que perpetuar umha imagem que enquilosa a Ciência.

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