Um pouco de filosofia e os congressos científicos

Se o outro dia lembrava que as linhas pouco rectas que seguem as conversas de salom saltaram dos clatrato para os tassalógenos e destes para o pouco interesse lingüístico na fixaçom de termos técnicos e o enxebrismo suicida da ILG-RAG, hoje quero dar um salto mais pequeno. Departíamos eu e o senhor Sheamais de Filosofia da Ciência -em cadeiras de coiro no clube de cavaleiros, iluminados pola chaminé e desfrutando do cognac servido por Bautista- concretamente da crítica marxista de Lévi Leblond da praxe científica (Nota: Neste ponto a metade dos visitantes do blog já fugírom, assim que amigo leitor estamos quase sós) e de se a chamada deriva “proletária” da Ciência é inevitável. Melhor recomendar a leitura do artigo e os trabalhos de Leblond que fazer umha exposiçom completa do tema. Só dizer que pessoalmente eu nom tenho claro que o nível de desenvolvimento do conhecimento científico e a adopçom dos procedimentos de equipas científicas obrigue para a estruturaçom “industrial” moderna. Penso que provoca o demérito da actividade individual de técnicos de laboratório e investigadores com “menos nome” e o nascimento de dinámicas nocivas influídas polos interesses económico-técnicos privados. A sua encarnaçom é a emersom de indivíduos afastados da actividade científica real como coordenadores dos grupos de investigaçom. A força epistemológica das comunidades científicas nasce do processo de reconhecimento mútuos dos méritos, e perde qualidade quando está dominada -como agora- por interesses nada científicos. A importáncia capital do processo de confirmaçom por estranhos e a sistematizaçom do processo científico -sempre positivos- nom justifica a conversom da actividade científica em “trabalho” científico.*

[Após o parágrafo anterior ,que nom dim aligeirado, foge o último leitor]

Bem, pois dessa conversa -cuido que nascida da situaçom de precaridade dos bolseiros- comentamos o fito histórico que representou o primeiro congresso internacional de Científicos. Investigando um pouco considero que a Química é que leva esse mérito, e concretamente Kekulé. O chamado “Primeiro Congresso Internacional de Química de 1860” convocado polo químico pai das fórmulas estruturais serviu para unificar critérios de investigaçom nos campos da Química a Física. O contexto é o do caos experimental e teórica de começos do século XIX. Dos limitados elementos que quantificavam os clássicos passamos os mais de vinte do XVIII -coa inclusom do nitrogénio, oxigénio, hidrogénio, cloro, cobalto, platino, níquel, manganésio, tungsténio, molibdénio, uranio, titanio e cromo. Só na primeira década do XIX os químicos engadírom 14 novos elementos. Para 830 já eram 53 elementos e os químicos nom podiam saber ainda quantos mais haveria. Lembrem que nesta época o modelo atómico era só umha ferramenta intelectual que permitia os químicos visualizarem os processos, aliás as partículas subatómicas como os protons que criam as diferenças entre os átomos nom eram conhecidas. Era um caos tal que conceitos que hoje consideramos básicos na compreensom da Química como peso atómico, peso molecular e peso equivalente eram confundidos por químicos profissionais.Durante todo o século muitos químicos tentaram ordenar os elementos dalgum jeito depois do químico germano Johann Wolfgang Döbereiner observar em 1829 que existiam grupos de três elementos que presentavam umha gradaçom nas suas propriedades. A chamada tríada cloro-bromo-iodo é o exemplo perfeito: Döbereiner que o “novo” elemento bromo (ilhado em 1926) tinha propriedades a meio caminho entre o cloro e o iodo, e que o seu peso atómico estava justo entre eles dous. Conquanto já dixemos que muitos químicos da época nom tinham mui claro os conceitos relacionados co peso atómico, assim que o achado de Döbereiner de duas tríadas mais foi considerado só acaso. Outros intentos de organizaçom eram incorrectos por esse erro conceptual. Por sorte quando Kekulé quijo generalizar as suas fórmulas estruturas -que permitem visualizar a posiçom relativa dos átomos num composto- compreendeu que era trabalho inútil se os químicos nom concordavam nas fórmulas empíricas. Assim o cientista preparou umha reuniom internacional de químicos para discutirem o problema: Em 1860 mais de cento quarenta delegados reunírom em Karlsuhe (Alemanha). Junto com a aceitaçom das fórmulas de Kekulé a circulaçom dum artigo de Stanislao Cannizzaro no que difundia o trabalho de Avogadro e no que distinguia de jeito direito e singelo entre os conceitos de peso atómico e peso equivalente rematou por redondear o sucesso do congresso.

Só dous anos depois deste congresso, e empregando a clara definiçom de peso equivalente de Cannizzaro, o geólogo francês Alexandre Emile Beguyer de Chancourtois ordeou os elementos dum jeito genial num gráfico circulo que mostrava relaçons direitas das propriedades dos elementos. O seu trabalho nom tivo muita difusom porque nom publicou as suas gráficas, só umha resenha. Em 1864 o inglês John Alexander Reina Newlands ordenou os elementos por peso atómico crescente em colunas de sete elementos, e topou as tríadas de Döbereiner situadas nas mesmas filas horizontais. Por inspiraçom musical Reina baptizou a sua tabela como “A lei das triadas”, como as serie de notas na que oitava é mui parecida da primeira e o começo dumha nova série de sete. Mas a classificaçom nom era mui consistente porque nas filas horizontais também estavam juntos elementos mui dessemelhantes. A questom é que num período de 10 anos muitos cientistas puderom empregar os novos conceitos bem fixados no congresso para desenhar sistemas de classificaçom -com mais ou menos sucesso- até que em 1989 o físico russo Mendeleiv publicasse a sua tabela definitiva. E todo graças o trabalho em comunidade e a comunicaçom dos conceitos científicos nos congressos.

*E coma sempre, esta crítica minha nom pode ser interpretada como um adesom das babocadas dos pseudo-cientistas que berram contra o “obscurantismo e obstruçom da Ciência oficial”. como o sempre lamentável Iker Jimenez na presentaçom da sua nova enciclopédia da incultura patrocinada polo grupo PRISA. Igual que compartilhar as críticas de Maio de 68 de Sonia e Maurice Dayan da dependência da tecno-ciência do Estado ou do tremendo artigo do grupo Survivre em 1971 contra o aproveitamento dos inumeráveis sucessos da Ciência para a criaçom ideológica dumha quase-religiom que serve para novos meios de exploraçom social baixo o mando do Estado. Como bem resenham os integrantes de Survivre nesse artigo o chamado “Mito 1” -O único conhecimento real é o científico, quantificável e observável- e em essência verdade, nom se pode negar a supremacia intelectual da Ciência desde umha posiçom racional, mas o que em origem é umha chave para rematar coa Idade Escura nom pode mudar em justificaçom da labor repressiva do Poder. Ninguém pode negar que os únicos qualificados para emitir afirmaçons fundadas sobre um tema é som os espertos sobre esse mesmo tema, mas nom podemos encarnar isso num Mito 6 que serve par escamotear a capacidade individual para dissentirmos de jeito racional. Por desgraça os avisos de Survivre agora som património do obscurantismo medieval que fai renascer umha Idade Escura que os revolucionários nom podiam imaginar.

Leituras sobre os temas:

GRUPO SURVIVRE. ‘A nova Igreja Universal’, in Survivre, Paris, (1971), págs. 48-57.

LEVI LEBLOND, J. M. ‘A ideologia da/na Física contemporánea’, in Les Temps Modernes, (1974), págs. 337-338

MANUEL, Frank E. Philosopher and Kings: Studies in Leadership. G.Braziller, Nova Iorque, 1970

SANCHEZ RON, J. M. El poder de la ciencia. Alianza, Madrid, 1992.

VARIOS. Search for the Elements. Basic Books, Nova Iorque, 1960.

ASIMOV, Isaac. A Short History of Chemistry – An introduction to the Ideias and Concepts of Chemistry. Doubleday & Co., Nova Iorque, 1965

  • By Dietrichv, Xaneiro 30, 2008 @ 1:04 p.m.

    Denso, muito denso…mas interesante. :mas nom deberias ter esquencido a utilizaçom da ciência por parte de certas religions para os seus intereses mentres a desbotam para o que os incomodam. Saude e Lagrangianas, camarada.

  • By odemo, Xaneiro 30, 2008 @ 3:06 p.m.

    E meter outro parágrafo? (E perder outro leitor mais?) 😉

  • By Sheamais, Febreiro 3, 2008 @ 10:33 p.m.

    Curioso xeito de descrivires o salón do piso 😉

  • By odemo, Febreiro 4, 2008 @ 2:30 p.m.

    Era umha referência a um capítulo dos Simpson’s 😀 😀

  • By Sheamais, Febreiro 4, 2008 @ 5:29 p.m.

    a min lembroume a Family Guy, cando Brian entra a traballar no New Yorker

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