O mal sob o bigode

Pode ser simplesmente umha alucinaçom minha, mas depois de  ler esta entrada no Blog Ausente sobre as obsessons pilosas da CIA nom podo deixar de comentar o estarrecedor parecido entre o Hitler sem bigode e H.P. Lovecraft:

Há algo mui inquietante nesses beiços superiores, nesses lábios apertados nesse olhar perdido. Com todo, estamos acostumados a ver a cara de Lovecraft e tentar entrever os retalhos da sua loucura. Mais impenetrável era o rostro dum Hitler, capitalizado por um bigode icónico. Dalgum jeito o bigode hitleriano converteu-se no símbolo do próprio mal nazista -chega com engadir com caneta esse adorno facial para “malignizar” um retrato-  e a sua força estética ocultou essa mirada estranha, perdida, esse gesto triste do genocida. Se calhar com essa pequena franja de sobra na sua cara Hitler é a imagem do mal, mas a sua ausência nom fai perder força ao terror da imagem.

Isto só o amanhamos coma sempre, nom pensem noutra soluçom

Estám intrigados pola campanha “estosololoarreglamosentretodos.com” que desde há umha semana aparece em televisom, nas paradas de autocarros, nas grandes faixas publicitárias na rua?  Se tenhem um pouco de tempo- e se som desse 30% da populaçom activa que nom tenhem trabalho, desses 4,5 milhons de parado, cuido que terám muito tempo- quero que fagam um pequeno experimento mental que pode ajudar a que compreendam melhor essa campanha. É como segue.

Imaginem umha folha branca de papel. Com a sua mente, divida-na em dous com umha linha de arriba até abaixo. O lado esquerdo da folha está intitulado “culpáveis da crise”, o outro “vítimas da crise”. Bem, agora vou-lhes dar umha lista de empresas e entidades e quero que , sob a sua própria vontade e juízo, coloquem num lado ou no outro da sua folha de papel imaginária. Se acham que algum tem que estar nos dous, fagam-no. Eis a lista:

Telefónica, Iberia, El Corte Inglés, BBVA, Santander, La Caixa, Caja Madrid, Repsol, Cepsa, Endesa, Iberdrola, Mapfre, Abertis, Mercadona, Indra, Renfe, Red Eléctrica, a Federación de Cámaras de Comercio, Seopan (A patronal das grandes empresas  de construçom), e por último você caro leitor.

Remataram já? Tenhem a sua lista  bem feitinha? Deixem adivinhar, a coluna da esquerda e bem mais longa que a direita, nom sim? Aliás você está sozinho na da direita. Bem, agora o bom: Agás o último elemento todos os anteriores som os promotores dessa campanha de “bom rolho anti-crise” que falávamos no começo.  Eles criaram a “Fundación Esperanza”  responsável dessa campanha que aparece em todas partes. Tenhem quartos de sobra, só Telefónica aumentou o seu benefício um 2,4% em 2009.

A campanha, segundo os seus próprios promotores, quer incentivar o consumo da populaçom. Desde o 2007 o consumo privado no Estado espanhol nom fai mais que baixar. A gente simplesmente confia menos nas possibilidades económicas no futuro, tem mais medo, perde confiança na economia, gasta menos, consume menos, aforra o que pode. E isso nom é assumptível polas grandes empresas. De facto nom o é para a economia capitalista. Quase dous terços do produto interior bruto do estado depende directamente desse consumo. Aliás, se agente quer poupar, nom se pedem hipotecas e empréstimos nos bancos, como o que o jogo bancário de compra e venda desses activos reduze-se… etc.  A própria página web celebra na sua secçom de “notícias optimistas” que cada vez se pedem mais hipotecas. Se calhar tenhem razom, se ganhamos “confiança” no mercado, começamos a gastar -primeiro o que temos aforrado e depois o que lhe pediremos ao banco- injectemos suficiente dinheiro como para que todo volte estar como antes da crise. Exactamente igual que antes da crise.  E antes estávamos bem, nom? Ou se calhar nom queremos.

Se calhar a cidadania, nom os consumidores, percebem que realmente nada mudou. Que nom existem essas garantias no mercado, por muita confiança, e vontade, e sorrisos de famosos que saiam na TV. Que os mesmos directivos, gestores e empresas que nos levaram à crise seguem nos seus postos. Que a legislaçom e os organismos que se prometeram para “refundar no capitalismo” nom existem mais que nas hemerotecas. Ou que entrementres os governos de todo o mundo gastaram o dinheiro público, a fundo completamente perdido, em salvar aos responsáveis. Pode que a gente some umha mais umha e repare em que as crises económicas, seguidas dos processos de incentivaçom do consumo e endivido privado, seguidos de grandes épocas de euforia especulativa… seguida de crises, som umha constante na economia capitalista desde a saída da Idade Media. Se calhar, desta vez, nom queiramos consumir mais, se nom menos. Procurar a maneira de reduzir o nosso gasto externo, subsistir com menos, aforrar ou gastar… nos médios que nos permitam  umha pouca mais autonomia pessoal. Pode que nas próximas eleiçons nom votemos nos partidos que gestionam esta e outras crises, e que concordam com a mensagem da campanha. Só por provar. Por curiosidade. Por saber se realmente isto só o podemos amanhar nós.

Semelhanças

Ela, no senso mais pejorativo

Preme na imagem para ver a versom grande


Hoje tocou limpeza

Estam sobre nós…

Admitamos que todos vimos a pimeira imagem tirada desde a cupola da ISS no twitter do astronauta japonês Soichi Noguchi:

e depois pensamos nisto:

Para os “autênticos”

E também ia a cafés de modernos em Zürich.

As vezes um pode ler cada parvada em Internete…

A mirada de H.

O ano próximo o meu irmao e mais eu decidimos ir de Horatio Cane em Entrudo.

Kennedy, Lincoln e a Lei de “Seguridade da evidência conspiracional”

O anumerismo: “E que eu sou de letras”

Um grande divulgador da Ciência, concretamente da Matemática, é o americano John Allen Paulos. Ele é professor de Matemáticas na universidade de Philadelphia e o seu trabalho  académico está centrado no estudo da lógica matemática e na teoria das probabilidades, mas é conhecido internacionalmente polo seu esforço  divulgativo contra o “analfabetismo matemático”. O seu livro Innumeracy: Mathematical Illiteracy and its Consequences ( El Hombre Anumérico, cuido que nom há publicada traduçom na nossa língua) foi um Betseller no final da década dos 80, e nele falava do conceito de “anumerismo”, paralelo ao de analfabetismo, que atinge um grande sector da populaçom. O termo original em inglês foi acunhado por vez primeira polo físico, professor de ciências cognitivas e ganahador do Pulizter, Douglas Hofstadter ¹ como a falta de habilidades básicas para trabalhar com números e conceitos matemáticos: Nom só somar, restar e as outras operaçons básicas da Álgebra, aliás o cálculo de probabilidades, o manejo das escalas de magnitudes, os conceitos básicos das teorias de de jogos, etc.

Paulos falava no seu livro do contraste entre o estigma social que representa o analfabetismo -total e funcional- e como algumhas pessoas -até algumhas de grande sucesso social- declaram até “estarem orgulhosas” do seu pouco conhecimento matemático. Esta falta de interesse -continua Paulos- leva a que essas pessoas tenham incapacidade para interpretarem e reproduzirem notícias, assim como as interpretar com cepticismo, julgar adequadamente as relaçons económicas -tanto globais como pessoais, cair na “falácia de Montecarlo” ² quando apostarem, pobre estimaçom do risco dos eventos e sobretodo: maior tendência a acreditarem em pseudociências e teorias da conspiraçom. Destacava o autor a facilidade com que os inventores de conspiraçons e “histórias” alternativas empregam a pobre formaçom estatística da gente para justificar as teorias mais delirantes. E sobre isto queria falar hoje.

As vidas (nom tam) paralelas de Kennedy e Lincon

Cecais seja o exemplo mais claro de “estranha coincidência” que se repete umha e outra vez no saber popular. O mistério é apresentado como segue:

Abraham Lincoln foi elegido para o Congresso dos EUA em 1846 e J.F. Kennedy em 1946. Lincoln foi presidente em 1846 e J.F. Kennedy em 1946. Os apelidos Kennedy e Lincoln tenhem sete letras. Os dous forom disparados umha sexta feira, e na cabeça. A secretária de Kennedy chamava-se Lincoln e a de Lincoln, Kennedy. Os seus sucessores eram pessoas dos estados do Sul e ambos apelidavam-se Johnson: Andrew Jounson, nascera em 1808 e Lyndon B. Jounson em 1908. O assassino de Lincoln, John Wilkes Booth nasceu em 1839 e o assassino de Kennedy, Lee Harvey Oswald em 1939; ambos forom conhecidos polos seus três nomes, que somam quinze letras e ambos eram também do Sul. Booth atirou num teatro e foi capturado num armazém, e Oswald desde um armazém até um teatro. E os dous forom assassinados antes dos seus juízos. Umha semana antes do disparo Lincoln estivo em Monroe, Maryland; umha semana antes do disparo Kennedy estivo em “Marilyn, Monroe”.

Como Paulos fai notar em muitas das suas o bravos se tomamos dou eventos, lugares ou pessoas, as que quiger o leitor, é seguro que toparemos algum tipo de “coincidência”. Realmente nom existe nengumha regra fixa para determinar porque umha coincidência é importante e umha diferença nom: A coincidências das datas de nascimento é importante no caso dos assassinos e sucessores mas nom coincide no caso dos assassinados, entom nom se resenha. é o que se chama”Lei da Evidência Conspiracional”: quando construímos um mito ficamos com os dados que se ajustarem ao nosso conceito de “coincidência” e rejeitamos os que discordarem.

Umha vez que temos umha série de essas “coincidências” as seguintes vam ganhando força na mente do interlocutor, por acumulaçom, mas umha vez a falácia do jogador.

Mas analisemos as cousas polo miudo as “coincidências”, já que estamos:

  • Os períodos de 100 anos:

Nom há nada extraordinário em que dous sucessos políticos (como as eleiçons para o Congresso e a Presidência  ou vitais (assassinatos e nascimentos) de duas pessoas estejam separados por períodos de 100 anos.Ou nom mais de estarem separados por 96 ou 104. A divisom dos anos em grupos de 100 baseia-se em umha conveniência cultural e social, mais nada. Para a numeraçom empregamos um sistema decimal, e os grupos de dezenas e centenas som útiles polo jeito de  notaçom matemática que empregamos; se contássemos em base 12 cecais organizássemos os anos em grupos de 144. De facto outras culturas que tenhem outro jeito de contarem os números nom vem nada singular nos períodos centenários.

Um baixo conhecimento de lógica pode levar a pensar que ter sido elegidos para o Congresso e a Presidência com 100  anos de diferença pode ser umha coincidência extraordinária. Se o pensamos bem, se duas pessoas seguem a mesma carreira -a política- e as suas vidas estám separadas por X anos o normal é que os  sucessos importantes dessa carreira estejam separadas por X anos. Ademais, seguindo umha tradiçom  já estabelecida pola República Romana³ há mais de 2500 anos a carreira política “tem as suas idades” e prazos, o chamado cursus honorum. Mas Lincoln e Kennedy entraram no Senado com 92 anos de diferença, entom esse dado nom se sinala. Tampouco coincidem as datas dos seus nascimentos e mortes, dados que sim parecem importantes no caso dos sucessores e assassinos.

Aliás, alguns desses períodos som falsos: Booth nasceu realmente em 1838.

  • Os números e os nomes:
  • Paulos e outros fam notar que os apelidos e 7 letras de origem sajona som bastante comuns nos EUA, assim que essa coincidência nom é de estranhar. Também a estatística di que a a distribuiçom de nome-segundo nome-apelido adoita ser de 5 de media para cada elemento, assim que a soma dos nomes dos assassinos é o esperável, nom algo anedótico. Chamar os assassinos afamados – nom só de presidentes- polo seu nome é umha convençom jornalística dos media americanos, igual que o de nom empregar -ou ponher só a inicial- no caso dos políticos. De facto os jornais da época de Lincoln referiam o seu assassino como “J. Wilkes Booth”, e só anos depois dos factos impujo-se o nome completo.

    Johnson é um apelido terrívelmente comum nos EUA, assim que tampouco há nada de “estranho” na coincidência dos nomes dos sucessores dos dous políticos. Também quando se referem ao nome das secretárias os conspiranoicos nom dim quantos secretários e assistentes pessoais tinha cada um deles. E tendo em conta relevância do apelido Lincoln, podemos assegurar que Kennedy nom escolheu essa secretária entre outras pola força do apelido? Muitas vezes o que parece coincidência nom o é, e só parece quando temos umha mostra segada dos dados. Recentes investigaçons duvidam que Lincoln tivesse tal secretária, assim que outra parte do mito que cai.

  • A conexom do Sul
  • De verdade é umha surpresa que dous presidentes do Norte levassem como companheiros de bilhete de votaçom dous vice-presidentes do Sul? Depois das últimas eleiçons americanas nom nos ficou claro como é o sistema eleitoral americano e as suas tradiçons? A eleiçom dum vice-presidente nom é um processo “aleatório” nunca, e depende dos objectivos e simpatias eleitorais.
    John Wilkes Booth nasceu realmente em Maryland, que como máximo pode ser chamado de “estado fronteira” na Guerra Civil. O ḿáximo que se pode dizer que ele era simpatizante sudista.

  • As mortes dos assassinados e os assassinos
  • Na versom original da conspiraçom ressaltam que os dous presidentes morreram dum disparo na cabeça: Se você fosse matar alguém, desde mui perto -Lincoln- ou desde longe com um rifle -Kennedy- onde dispararia? Um tiro na cabeça é a norma nestes casos. Também se destaca que os magnicidios foram numha sexta- feira, porém a morte de Lincoln nom chegou até o sábado, isso nom se destaca.
    Resumir a perseguiçom, complexa e long, de Booth como “disparar num teatro e rematar numha granja” é mui singelo. Realmente rematou num secadeiro de tabaco, e nom foi “assassinado antes do juízo”, realmente negou-se a depor as armas e morreu no confronto com a polícia.

  • A piada final
  • O jogo de palavras com Marylin e Maryland é engraçado… se nom fosse porque a actriz morrera um ano antes do assassinato de Kennedy.

    Seguridade da evidência conspiracional

    Como podemos ver estas construçons de mitos urbanos baseiam-se tanto em dados falsos, jogos como simbolismo subjectivo dos espaços de tempo e os nomes dos lugares, e sobretodo na acumulaçom dessas “evidências” que por força do número levam a pensar que existe umha “coincidência”. A mente humana está preparada para topar padrons em difrentes situaçons, ferramenta fundamental para a nossa sobrevivência mas que também cria essas ilusons. Realmente, de pormos os dados no seu contexto real seriamos quem de ver que nom há nada de estranho. Som centos os feitos vitais entre os dous personagens que nom coincidem e que nom se remitem nessas composiçons conspirativas.

    Mas umha vez vemos que os mitos e as lendas estám fundamentados na ignorância de quem acredita nelas.

    Notas

    ¹ Filho de Robert Hofstadter, físico ganhador dum prémio Nobel polos seus estudos na dispersom de electrons que permitiram avançar no conhecimento da estrutura dos nucleons.
    ² Também conhecida como “falácia do jogador” consistem em assumir que o comportamento passado dum sucesso aleatório vai influir nos futuros resultados. Assim há gente que acredita em que jogando o mesmo número na loteria sempre tem mais possibilidades de sair. Ou que se num sorteio saiu um número no dia anterior este tem menos possibilidades de sair no do dia seguinte, etc.
    ³ De facto no Reino de Roma, antes do 508 A.C., já existia umha idade fixa para entrar na política das assembleias de cada tribo.

    Lobsang Rampa, o encanador de Plymton e a boa imprensa

    Embora a história de Cyril Henry Hoskins é um clássico dos calotes espirituais descobertos e denunciados há décadas por umha boa investigaçom, ainda hoje sobrevive no imaginário místico de muita gente. Para mostra hoje amanhá, num descanso do estudo da biblioteca, pudem ver como umha rapariga nova levava em empréstimo o livro co que começou a história que vos quero contar.

    Umha “biografia” de sucesso

    Em 1956 a editora americana Doubleday and Company ¹-responsável na sua alongada história de publicar obras de Anne Rice, Murakami ou Bradbury- e a inglesa Secker & Warburg ² sacavam do prelo um livro intitulado The Third Eye (O terceiro olho). Apresentava a obra como umha autobiografia dum monge budista chamado Tuesday Lobsang Rampa. O livro narrava a educaçom espiritual dum filho da nobreça tibetana, adestrado num mosteiro budista durante o reinado do 13º Dalai Lama no começo do século XX. A criança demonstra rapidamente umha “iluminaçom” especial, memorizando o conteúdo do Kangyur ² com poucos anos. O personagem percorre um caminho teológico e político, implicado nos eventos prévios à invasom do Tibete pola China.

    Entre os factos mais destacáveis do livro está umha cerimónia de trepanaçom cirúrgica na que os monges abrem um buraco na fronte de Lobsang Rampa para lhe outorgar a capacidade de ver as “auras” e intençons das pessoas. Como se introduze na corte do Dalai Lama e adverte a Thubten Gyatso das intençons reais dos emissários chineses. O livro também relata um encontro co célebre tibetólogo Sir Charles Alfred Bel – que Rampa descreve com condescendência-, Yetis ou umha múmia do próprio protagonista numha anterior encarnaçom, monges voando em zorras, gatos místicos que protegiam as ermitas dos ladrons e viagens místicas onde falava da “corda dourada” que une o corpo físico e o espírito. Noutra cerimónia revelam-lhe que outro planeta impactou a Terra em tempos primordiais, sendo responsável da elevaçom geográfica do Tibete.

    O editor da obra afirmou na publicidade que figera todo o possível para autentificar o manuscrito, mas que “nom chegara a umha conclusom segura”. Porém a promoçom oficial esqueceu esses detalhes e com rapidez converteu-se numha das obras mais vendidas do ano. Em pouco tempo estava nas prateleiras de todos os precursores dos movimentos “alternativos” dos anos 60 e citado umha e outra vez em todas as publicaçons místicas e para-anormais da época.

    As investigaçons de Heinrich Harrer e Clifford Burgess

    Desde o primeiro momento os experto em cultura tibetana dixeram que a obra era umha fraude. Que pouco ou nada do que reflectia o livro tinha que ver com as doutrinas reais do budismo. Um grupo de estudosos decidiu começar umha investigaçom académica e policial sobre a fraude. No grupo estava incluído Heinrich Harrer (foto esquerda), conhecido atleta e geógrafo austríaco e autor de Sete anos no Tibete, amigo pessoal do 14º Dalai Lama e um dos ocidentais que mais contacto tivera com a vida na Lhasa prévia à ocupaçom chinesa. Também chamou a atençom de Fra’ Andrew Bertie, historiador e Soberano Príncipe e Grande Mestre da Ordem Militar de Malta até 2008, por citar só algum.

    Heinrich Harrer (direita), por médio do seu próprio editor Hart–Davis, tentou concertar umha reuniom com o monge, que também se afirmava doutor de medicina pola Universidade de Tchong-k’ing. A resposta que obtivo foi que o místico estava em retiro espiritual após o grande sucesso da sua obra, preparando umha continuaçom. Ante essa contrariedade o grupo contratou os serviços dum detective de Liverpool, Clifford Burgess.

    Este nom tardou em localizar o verdadeiro autor: Cyril Henry Hoskins. Era o filho dum encanador de Plympton, Inglaterra. Depois de trabalhar uns anos co pais entrou numha empresa de fabricaçom de material cirúrgico e começou a ter gosto polo ocultismo e mudou o seu nome para Kuan-suo em 1948, nom sem antes pelar a cabeça e deixar crescer a barba. Pouco depois foi despedido da empresa e vagou por vários dos ambientes místicos da ilha. Depois mudou-se para Irlanda onde desligou por completo da sua família e amigos, casou com umha enfermeira também interessada na parafernalia ocultista e escreveu a obra que o levaria à fama. Em nengum momento até entom saiu das Ilhas. E foi alá onde foi confrontado por Burgess, que quijo saber como calhava o seu passado como encanador e as suas supostas ensinanças em Lhasa. A resposta de Cyril foi que ele nom era mais essa pessoa, que em 1947 fora contactado polo espirito do monge -morto já- que lhe explicara que tinha necessidade de continuar com a sua missom de proteger o Tibete, agora desde a Inglaterra. Murada o nome seguindo as suas ordens e desligara de amigos e família para “fazer mais singela a transiçom de espíritos”. Depois dum acidente com contusom cerebral incluída – em palavras do próprio Cyril/Lonbsan umha caída desde umha arvore mentres tentava fotografar um moucho (sic)- o espírito do encanador marchou cara as alturas estelares -canso da sua vida- e o monge budista tomou o controle . A publicaçom da novela -e das continuaçons- era parte da la labor proselita que tinha como missom.

    Cando menos era original. Claro que quando foi confrontado com Harrer, outros estudosos fluentes em tibetano também foi rápido para dizer que “tinha um bloqueio mental para nom falar tibetano que era fundamental para o sucesso da transmigraçom”.

    As conclusons da investigaçom de Burgess publicadas no Daily Mail em Fevereiro de 1958. O artigo tivo muita difusom, e reduziu bastante as vendas do calote de Cyril, mas nom impediu que as suas seguintes obras -que continuavam com a história de Rampa-tivessem vendas suficientes como para permitir-lhe viver do conto.

    Quando os expertos falam mal… passamos deles

    Um feito curioso é que duas editoriais prestigiosas publicassem como legítima umha obra tam fraudulenta. De facto o editor inglês enviou cópias do manuscrito a várias eminências sobre o Tibete, e todas respostaram que página por página o livro contradizia tanto a teologia budista como a história conhecida e registrada dessa época no Tibete.

    Entre os muitos erros estava a interpretaçom literal do conceito budista do terceiro olho como umha operaçom de trepanaçom ou falar da “corda dourada” nas viagens espirituais, um conceito místico mui velho sim… mas do ocultismo e misticismo exclusivamente ocidental. Tampouco é verdade que os novícios budistas tenham que decorar o Kangyur, como o Coram nas tradiçons islamitas, tanto polo seu exagerado volume como que é umha obra de consulta pontual que nom se emprega como base de doutrina. Ou que os tibetanos nom tomassem como nome o do dia do seu nascimento (Disso “Tuesday”). Que Sir Charles Bel nom visitara Lhasa até 1920, dez anos depois do passamento do 13º Dalai Lama era um detalhe menor.

    O número de especialistas que recomendaram a Secker & Warburg nom publicar a obra – polo bem da sua reputaçom como editora séria- ou cando menos deixar claro que era pura ficçom é interminável: Ademais dos já citados Heinrich Harrer, Fra’ Andrew Bertie também falaram Marco Pallis -figura senlheira dos estudos tibetanos- ou até Hugh E. Richardson ! Até Leopold Fischer, antropólogo e sanscritólogo austriaco que se converteria ao hinduísmo advaita sob o nome Agehananda Bharat afirmava numha carta à sociedade de estudos tibetanos em 1974:

    “I was suspicious before I opened the wrapper: the “third eye” smacked of Blavatskyan and post-Blavatskyan hogwash. The first two pages convinced me the writer was not a Tibetan, the next ten that he had never been either in Tibet or India, and that he knew absolutely nothing about Buddhism of any form, Tibetan or other. The cat was out of the bag very soon, when the “Lama”, reflecting on some cataclysmic situation in his invented past, mused, “for we know there is a God.” A Buddhist makes many statements of a puzzling order at times, and he may utter many contradictions; but this statement he will not make, unless perhaps — I am trying hard to find a possible exception — he is a nominal Nisei Buddhist in Seattle, Washington, who somehow gets into Sunday school at age eleven and doesn’t really know what he is talking about.

    Every page bespeaks the utter ignorance of the author of anything that has to do with Buddhism as practiced and Buddhism as a belief system in Tibet or elsewhere. But the book also shows a shrewd intuition into what millions of people want to hear. Monks and neophytes flying through the mysterious breeze on enormous kites; golden images in hidden cells, representing earlier incarnations of the man who views them; arcane surgery in the skull to open up the eye of wisdom; tales about the dangers of mystical training and initiation — in a Western world so desperately seeking for the mysterious…

    Nom só demostrava ignorância total dos conceitos budistas mais simples, aliás misturava conceitos da Theosofia victoriana mais pobre!

    Ainda assim, depois de todos esses avisos de verdadeiros expertos… a publicaçom saiu. O que nom di muito das editoras da época, predecessores das actuais que nom tenhem escrúpulos em publicar panfletos obcurantistas dos Rampa de turno.

    Lobsang-Cyril depois do escândalo: Há quem acredita em qualquer cousa

    A começos dos 70 Cyril emigro ao Canadá. Mantivo até a sua morte a sua versom da história. Tivo tempo de escrever 30 livros mais, todos eles no campo do “oculto”. Continuou as aventuras da sua anterior encarnaçom e até tivo oportunidade narrar a sua visita a Venus (My Visit to Venus) acompanhado de extraterrestres budistas. Só os levitantes monges da Terra podiam aceder a essas naves, pois “estavam feitas de antimatéria”. Mas se calhar a sua obra mais delirante foi <em>Living with The Lama</em> segundo ele , ditada polo seu gato siamês.

    Nos anos seguintes tivo tempo de ser tarotista, vidente, ufólogo, medium… até o seu passamento em 1981. Eu acredito firmemente em que nalgum momento o seu espirito topará novo corpo -se nom o fixo já- para continuar a escrever literatura-lixo.

    Por mui engraçada que resulta a história do lama Lobsang Rampa quando se conhecem todos os dados nom podemos esquecer que a sua obra foi co-responsável da onda de misticismo que aniquilou quase por completo a capacidade de pensamento logico dumha geraçom do mundo ocidental durante toda a década dos 60. Que a dia de hoje ainda se vende a sua obra como real, como guia espiritual, que dúzias de páginas web defendem a sua figura, e que caloteiros disfarçados de místicos – ou ainda pior místicos que acreditam no calote original- seguem a empregar os delírios de pobre tolo de Cyril.

    Pessoalmente aguardo que a rapariga que levou o livro esta manhá da biblioteca fixo-o para botar uns risos, com conhecimento da natureza da obra, e nom como parte da sua “formaçom espiritual”.

    Deixem-me sonhar.

    Notas:
    ¹ Doubleday foi durante muitos anos a editora em língua inglesa com maior tiragem. Hoje forma parte do gigante editorial Random House. Alguns dos leitores “mui dos noventa” lembrará com carinho como Elaine, da sitcom Seinfeild. dizia que o seu trabalho ideal seria nessa editorial.

    ² Sim, a de Orwell, Boris Souvarine e Simone de Beauvoir. E hoje também parte de Random House.

    ³ O Kangyur (As Palavras transcritas) é um cânone difuso de textos sagrados budistas formado por traduçons do sânscrito das palavras de Siddharta Buda e umha miríada de tratados, comentários, escritos doutrinais e demais. Nom existe um índice claro de que livros inclui, e depende muito de cada versom do budismo existente.

    Ou 關索, nome chinês dum dos guerreiros da épica História dos Três Reinos (三国演义) de Luo Guanzhong. Umha das obras mestras da literatura histórica mundial escrita no século XIV, e como tanta literatura chinesa mui desconhecida em ocidente. Kuan-suo era um dos guerreiros do Reino de Shu, o mais ocidental dos três. Cada menos é um nome “curioso” para um monge budista tibetano.

    A ordem dos acontecimentos nom fica clara em nengumha fonte. Há quem di que o golpe foi no 47 quando ainda vivia em Inglaterra e foi o começo do processo de “conversom” no lama. Isso sim, todas as versons coincidem que a arvore era um abeto.

    “O derradeiro inglês em Lhasa”. Diplomático e estudante da cultura tibetana que foi literalmente o último inglês -e representante do governo- em abandonar a cidade antes da invasom chinesa.