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Kennedy, Lincoln e a Lei de “Seguridade da evidência conspiracional”

O anumerismo: “E que eu sou de letras”

Um grande divulgador da Ciência, concretamente da Matemática, é o americano John Allen Paulos. Ele é professor de Matemáticas na universidade de Philadelphia e o seu trabalho  académico está centrado no estudo da lógica matemática e na teoria das probabilidades, mas é conhecido internacionalmente polo seu esforço  divulgativo contra o “analfabetismo matemático”. O seu livro Innumeracy: Mathematical Illiteracy and its Consequences ( El Hombre Anumérico, cuido que nom há publicada traduçom na nossa língua) foi um Betseller no final da década dos 80, e nele falava do conceito de “anumerismo”, paralelo ao de analfabetismo, que atinge um grande sector da populaçom. O termo original em inglês foi acunhado por vez primeira polo físico, professor de ciências cognitivas e ganahador do Pulizter, Douglas Hofstadter ¹ como a falta de habilidades básicas para trabalhar com números e conceitos matemáticos: Nom só somar, restar e as outras operaçons básicas da Álgebra, aliás o cálculo de probabilidades, o manejo das escalas de magnitudes, os conceitos básicos das teorias de de jogos, etc.

Paulos falava no seu livro do contraste entre o estigma social que representa o analfabetismo -total e funcional- e como algumhas pessoas -até algumhas de grande sucesso social- declaram até “estarem orgulhosas” do seu pouco conhecimento matemático. Esta falta de interesse -continua Paulos- leva a que essas pessoas tenham incapacidade para interpretarem e reproduzirem notícias, assim como as interpretar com cepticismo, julgar adequadamente as relaçons económicas -tanto globais como pessoais, cair na “falácia de Montecarlo” ² quando apostarem, pobre estimaçom do risco dos eventos e sobretodo: maior tendência a acreditarem em pseudociências e teorias da conspiraçom. Destacava o autor a facilidade com que os inventores de conspiraçons e “histórias” alternativas empregam a pobre formaçom estatística da gente para justificar as teorias mais delirantes. E sobre isto queria falar hoje.

As vidas (nom tam) paralelas de Kennedy e Lincon

Cecais seja o exemplo mais claro de “estranha coincidência” que se repete umha e outra vez no saber popular. O mistério é apresentado como segue:

Abraham Lincoln foi elegido para o Congresso dos EUA em 1846 e J.F. Kennedy em 1946. Lincoln foi presidente em 1846 e J.F. Kennedy em 1946. Os apelidos Kennedy e Lincoln tenhem sete letras. Os dous forom disparados umha sexta feira, e na cabeça. A secretária de Kennedy chamava-se Lincoln e a de Lincoln, Kennedy. Os seus sucessores eram pessoas dos estados do Sul e ambos apelidavam-se Johnson: Andrew Jounson, nascera em 1808 e Lyndon B. Jounson em 1908. O assassino de Lincoln, John Wilkes Booth nasceu em 1839 e o assassino de Kennedy, Lee Harvey Oswald em 1939; ambos forom conhecidos polos seus três nomes, que somam quinze letras e ambos eram também do Sul. Booth atirou num teatro e foi capturado num armazém, e Oswald desde um armazém até um teatro. E os dous forom assassinados antes dos seus juízos. Umha semana antes do disparo Lincoln estivo em Monroe, Maryland; umha semana antes do disparo Kennedy estivo em “Marilyn, Monroe”.

Como Paulos fai notar em muitas das suas o bravos se tomamos dou eventos, lugares ou pessoas, as que quiger o leitor, é seguro que toparemos algum tipo de “coincidência”. Realmente nom existe nengumha regra fixa para determinar porque umha coincidência é importante e umha diferença nom: A coincidências das datas de nascimento é importante no caso dos assassinos e sucessores mas nom coincide no caso dos assassinados, entom nom se resenha. é o que se chama”Lei da Evidência Conspiracional”: quando construímos um mito ficamos com os dados que se ajustarem ao nosso conceito de “coincidência” e rejeitamos os que discordarem.

Umha vez que temos umha série de essas “coincidências” as seguintes vam ganhando força na mente do interlocutor, por acumulaçom, mas umha vez a falácia do jogador.

Mas analisemos as cousas polo miudo as “coincidências”, já que estamos:

  • Os períodos de 100 anos:

Nom há nada extraordinário em que dous sucessos políticos (como as eleiçons para o Congresso e a Presidência  ou vitais (assassinatos e nascimentos) de duas pessoas estejam separados por períodos de 100 anos.Ou nom mais de estarem separados por 96 ou 104. A divisom dos anos em grupos de 100 baseia-se em umha conveniência cultural e social, mais nada. Para a numeraçom empregamos um sistema decimal, e os grupos de dezenas e centenas som útiles polo jeito de  notaçom matemática que empregamos; se contássemos em base 12 cecais organizássemos os anos em grupos de 144. De facto outras culturas que tenhem outro jeito de contarem os números nom vem nada singular nos períodos centenários.

Um baixo conhecimento de lógica pode levar a pensar que ter sido elegidos para o Congresso e a Presidência com 100  anos de diferença pode ser umha coincidência extraordinária. Se o pensamos bem, se duas pessoas seguem a mesma carreira -a política- e as suas vidas estám separadas por X anos o normal é que os  sucessos importantes dessa carreira estejam separadas por X anos. Ademais, seguindo umha tradiçom  já estabelecida pola República Romana³ há mais de 2500 anos a carreira política “tem as suas idades” e prazos, o chamado cursus honorum. Mas Lincoln e Kennedy entraram no Senado com 92 anos de diferença, entom esse dado nom se sinala. Tampouco coincidem as datas dos seus nascimentos e mortes, dados que sim parecem importantes no caso dos sucessores e assassinos.

Aliás, alguns desses períodos som falsos: Booth nasceu realmente em 1838.

  • Os números e os nomes:
  • Paulos e outros fam notar que os apelidos e 7 letras de origem sajona som bastante comuns nos EUA, assim que essa coincidência nom é de estranhar. Também a estatística di que a a distribuiçom de nome-segundo nome-apelido adoita ser de 5 de media para cada elemento, assim que a soma dos nomes dos assassinos é o esperável, nom algo anedótico. Chamar os assassinos afamados – nom só de presidentes- polo seu nome é umha convençom jornalística dos media americanos, igual que o de nom empregar -ou ponher só a inicial- no caso dos políticos. De facto os jornais da época de Lincoln referiam o seu assassino como “J. Wilkes Booth”, e só anos depois dos factos impujo-se o nome completo.

    Johnson é um apelido terrívelmente comum nos EUA, assim que tampouco há nada de “estranho” na coincidência dos nomes dos sucessores dos dous políticos. Também quando se referem ao nome das secretárias os conspiranoicos nom dim quantos secretários e assistentes pessoais tinha cada um deles. E tendo em conta relevância do apelido Lincoln, podemos assegurar que Kennedy nom escolheu essa secretária entre outras pola força do apelido? Muitas vezes o que parece coincidência nom o é, e só parece quando temos umha mostra segada dos dados. Recentes investigaçons duvidam que Lincoln tivesse tal secretária, assim que outra parte do mito que cai.

  • A conexom do Sul
  • De verdade é umha surpresa que dous presidentes do Norte levassem como companheiros de bilhete de votaçom dous vice-presidentes do Sul? Depois das últimas eleiçons americanas nom nos ficou claro como é o sistema eleitoral americano e as suas tradiçons? A eleiçom dum vice-presidente nom é um processo “aleatório” nunca, e depende dos objectivos e simpatias eleitorais.
    John Wilkes Booth nasceu realmente em Maryland, que como máximo pode ser chamado de “estado fronteira” na Guerra Civil. O ḿáximo que se pode dizer que ele era simpatizante sudista.

  • As mortes dos assassinados e os assassinos
  • Na versom original da conspiraçom ressaltam que os dous presidentes morreram dum disparo na cabeça: Se você fosse matar alguém, desde mui perto -Lincoln- ou desde longe com um rifle -Kennedy- onde dispararia? Um tiro na cabeça é a norma nestes casos. Também se destaca que os magnicidios foram numha sexta- feira, porém a morte de Lincoln nom chegou até o sábado, isso nom se destaca.
    Resumir a perseguiçom, complexa e long, de Booth como “disparar num teatro e rematar numha granja” é mui singelo. Realmente rematou num secadeiro de tabaco, e nom foi “assassinado antes do juízo”, realmente negou-se a depor as armas e morreu no confronto com a polícia.

  • A piada final
  • O jogo de palavras com Marylin e Maryland é engraçado… se nom fosse porque a actriz morrera um ano antes do assassinato de Kennedy.

    Seguridade da evidência conspiracional

    Como podemos ver estas construçons de mitos urbanos baseiam-se tanto em dados falsos, jogos como simbolismo subjectivo dos espaços de tempo e os nomes dos lugares, e sobretodo na acumulaçom dessas “evidências” que por força do número levam a pensar que existe umha “coincidência”. A mente humana está preparada para topar padrons em difrentes situaçons, ferramenta fundamental para a nossa sobrevivência mas que também cria essas ilusons. Realmente, de pormos os dados no seu contexto real seriamos quem de ver que nom há nada de estranho. Som centos os feitos vitais entre os dous personagens que nom coincidem e que nom se remitem nessas composiçons conspirativas.

    Mas umha vez vemos que os mitos e as lendas estám fundamentados na ignorância de quem acredita nelas.

    Notas

    ¹ Filho de Robert Hofstadter, físico ganhador dum prémio Nobel polos seus estudos na dispersom de electrons que permitiram avançar no conhecimento da estrutura dos nucleons.
    ² Também conhecida como “falácia do jogador” consistem em assumir que o comportamento passado dum sucesso aleatório vai influir nos futuros resultados. Assim há gente que acredita em que jogando o mesmo número na loteria sempre tem mais possibilidades de sair. Ou que se num sorteio saiu um número no dia anterior este tem menos possibilidades de sair no do dia seguinte, etc.
    ³ De facto no Reino de Roma, antes do 508 A.C., já existia umha idade fixa para entrar na política das assembleias de cada tribo.