MULTIVAC – O demo me leve http://odemo.blogaliza.org "Si eu fixen tal mundo, que o demo me leve" Mon, 16 Apr 2012 18:11:04 +0000 gl-ES hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.1 The Muller Election’08: Tam diferente e tam parecido http://odemo.blogaliza.org/2008/11/19/the-muller-election08-tam-diferente-e-tam-parecido/ http://odemo.blogaliza.org/2008/11/19/the-muller-election08-tam-diferente-e-tam-parecido/#comments Tue, 18 Nov 2008 22:13:37 +0000 http://odemo.blogaliza.org/?p=982 Esta é re-ediçom dumha entrada que a minha anterior falta de conexom nom me permitiu rematar. Entre todo o circo das eleiçons americanas -sim, sou dessas más pessoas que nom apostam um peso por o produto cíclico pre-fabricado da plutocracia eterna, agora em versom black-fashion, como o ipod ou a sua própria blackberry- algo abrolhou nas minhas lembranças. Eleiçons americanas do 2008… 2008…. tá! A Eleiçom de Muller! O meu eu-adolescente-namorado-da-scifi nunca perdoaria este despiste!

Falo, claro está, das eleiçons presidencias de ficçom que sucediam num relato de Isaac Asimov: The Franchise, publicado por vez primeira em 1955 na revista If. A história forma parte da série do MULTIVAC, a super-computadora que Asimov imaginou durante as décadas dos 50′ e 60′ como umha extrapolaçom gargantuesca das computadoras analógicas da Guerra, e post-guerra, Mundial. Convertida, no principal recurso da naçom americana, MULTIVAC realiza profundos cálculos e trabalhar com enormes quantidades de informaçom para solucionar problemas militares, económicos e sociais. Na altura do relato ela é, de facto, a encarregada de eleger o presidente dos EUA… Segundo a história que lemos no relato os estadunidenses fartarom das campanhas eleitorais multimilhonárias e da política partidista, e cara finais da década dos 60′ mudarom a sua “democracia representativa” para umha “democracia electrónica”: MULTIVAC emprega os dados sociais, económicos e políticos para criar um modelo do pais, e depois elege/escolhe um cidadam “representantivo” que se transforma no “eleitor”. Custodiado polo Serviço Secreto é transladado até  um recinto especial onde un funcionário do governo fai-lhe perguntas ligadas -ou nom- com a situaçom do país (desde o preço dos ovos, a qualidade do serviço de recolhida  lixo ou a qualidade da escola da sua filha) para assim poder incluir o factor da “presom moldeadora dos outros norteamericanos” -factor que MULTIVAC nom pode calcular- sobre o próprio indivíduo nos cáculos. Após umhas horas de perguntas, e mediçom das constantes vitais, o grande computador calcula durante dias para obter todos os resultados das eleiçons -presidente, poder dos diferentes partidos, governadores, alcaldes, sheriffes…-. No relato, como é habitual em Asimov, a acçom e os “feitos” som mínimos, observando o processo mental que leva a Norman Muller de estar aterrado pola sua responsabilidade – pois a gente adoita botar as culpas das más presidencias ao votante ligado com ela, sem contar com que é de facto MULTIVAC quem elege-  a ser um retrato do americano contente e orgulhoso do seu “voto”. Todo isto com os comentários do seu sogro, um homem idoso que lembra as épocas de eleiçons verdadeiramente democráticas, como contra-ponto.

O relato é umha consequência directa dum fito na história da informática: Nas eleiçons do ano 1952 quando um mainframe do computador -desta vez real- UNIVAC I empregou os primeiros resultados  -daquela os colegios eram mais lentos na contagem- das enquisas para predizer a vitoria de Eisenhover sobre Adlai Stevenson contra todos os cálculos e adiantos eleitorais do momento. Tam grande era a divergência entre os cálculos do computador e os prognósticos dos politólogos que o chefe da NBC em New York decidiu que tinha que ser um erro (saia umha aposta de 100-1 a favor de Eisenhover) e montou um pouco de teatro para vender um resultadod e 8-7 (mais ajustado). Quando Ensenhover alagou quase todo o pais com a cor vermelha republicana o jornalista reconheceu o seu engano. O sucesso da prediçom convertiu-se na principal publicidade para o primeiro modelo de computadora comercial

O relato é um dos melhores de Asimov, cuido que se calhar é o segundo melhor em qualidade como obra literária. Llembremos que existe umha escola de crítica que defende, com parte de razom, que se bem I.A. era um grande criador de relatos e imaginador de utopias e distopias a sua capacidade de transmitir acçom na literatura era mui inferior: Os seus personagens quase nom fam nada, nom existe descripçom da acçom física ou nom, só servem como envelope para os pensamentos e disputas lógicas da história. Em resumo, que os personagens de Asimov tenhem umha grande descripçom e profundiade intelectual, mas carecem dumha representaçom emocional real. Por contra em Franchise Norman Muller sofre emocionalmente o medo, o terror, a vergonha e também o orgulho e a fachenda. MULTIVAC fai a selecçom dum americano médio, e Asimov é quem de retratar nele os medos que um cidadam -filho dum sistema- poderia ter ao se enfrontar com um momento de tam grande trascendência. Como relato fica dentro das linhas de futuríveis da série de MULTIVAC, com essa mistura de confiançá no progresso da tecnologia -sempre protectora e paternalista em Asimov- e amargor profundo polo mau uso desta e a inércia social que adapta modelos sociais arcaicos a contextos tecnológicos avançados. Com medo de estender muito a entrada quero justificar isto último.

No relato há muitas monstras do pensamento político de Asimov, ou ao menos a sua imagem crítica da sociedade americana. O abandono da já pseudo-democracia americana por umha “democracia digital” nom é contestada pola populaçom. 40 anos depois o feito dumha computadora eleger todos os cargos do governo é já parte normal da vida: O reaçom da sociedade perante o sequestro  de facto das suas liberdades é nulo. A filha mais pequena da família nom acredita nas palavras do seu avô, que lembra as épocas nas que cada homem tinha um voto. A própria filha deste corre para o desacreditar quando este fala na mesa dos tempos pasados, o avô sim votou, mas isso nom era votar-votar  filha, daquela todo o mundo votava. Outra cousa que nom muda é a política-espectáculo -tecnicamente o que se pretendia eliminar com o MULTIVAC- pois a eleiçons do “eleitor”é anunciada aos poucos, semana a semana: Primeiro a zona do país, depois o estado, o condado, a cidade… até chegarem ao seu nome, seguido dumha espectacular dispersom das forças policias e militares para o proteger durante os dias prévios. Tampouco muda a alienaçom do votante, neste caso único, que umha vez rematada a sua labor fica imbuido desse pride tam americano da “participaçom democrática”, de encarnar os principios da democracia americana.

Como em todos os contos e romances de Sci-fi, e mais na época hard,  o retrato e analise dumha distopia concreta é umha escusa para teorizar e opinar sobre a própria realidade contemporánea: Fundation (de Asimov) é um percorrido polos sistemas de governo, o sentimento de mesianismo e predestinaçom, o ancilosamento dos sistemas de governo e de produçom de conhecimento científico quando um acredita numha perfeçom nos próprios tempos -como a China Imperial sob o Legalismo-Confucianismo, p.e.- . Childhood’s End de Carl Sagan (finado este ano) é umha dura crítica contra o pensamento categorial e a sobre-importáncias das apariências, assim como do peso da moral e a mitologia juedo-cristiá numha sociedade supostamente avançada. Dune de Frank Herbert é umha obra mestra que contem a melhor analise do integrismo religioso, o profundo dano que fam os impérios da auga -como o actual com o petróleo, o os problemas co coltam no Congo-  às sociedades, tanto as dependentes como as exploradas para manter o fluxo do produto fundamental. E assim com tantas novelas -das boas, nom do pulp- que é innecesário fazer umha listagem mais longa. Assim, sob umha inicial distopia sobre os avanços e a confiánça na tecnologia poderiamos observar umha oda sobre as virtudes da democracia dos EUA -“temos que valorizar o actual, coas suas falhas, e nom deixar que se perda!-“, porém umha leitura mais crítica permite ver um retrato das falsidades da plutocracia americana disfarçada de democracia.

Estes últimos meses os cidadans de Europa -e também os espanhois- percevemos a presom da periféria da aura de publicidade colosal que emerge com cada eleiçom norteamericana. Se os opinadores  do velho continente -e grandes massas de cidadans que navegarom entre a hipnose e o enjoamente- ficarom  absorvidos polos restos desse ciclom que nom sofreriam os próprios habitantes dos EUA?  O teatro foi interpretado polo mesmo manequim por triplicado -com roupas e facianas diferentes, mas tam vazio de conteudo político que as diferenças só eram a forma de verbalizar as imposturas dum processo onde os argumentos som o menos importante- foi passeiado e abaneado diante das cámaras. A interpretaçom dumhas primárias demócratas – quando as republicanas, que tinham guardadas na recámara personagens secundárias, como aquele ultra apoiado por Chuck Norris, fixaram já o candidato do partido- que enfrontarom a cópia preta e a cópia feminina do manequim-de-passeio  convertiu num exercício de mercadotécnia pefeita. Eleiçons históricas ganhem quem ganhe as primárias: Umha mulher ou um negro na carreira para a Casa Blanca; berravam os media; Ganhou Obama, o primeiro afroamericano com verdadeira oportunidade para sentar no escritório oval! Yes we can, umha frase que marca o seu programa. Chegou a verdadeira campanha, as enquisas subem, baixam, Obama ganha distáncia, MacCain recupera, a crise bateu forte e entom os candidatos aparcam outros temas e focam na política ecómica; maratons dos candidatos, os estados chace som… Noite eleitoral, dispositivos especiais; ganhar quem ganhar esta já é umha noite histórica, participaçom histórica-que nom foi- obama ganha por centos de votos estatais, yes we can, yes we can, acreditamos de novo no sonho americano, é o presidente da nova era, um presidente para o século XIX, um presidente para o mundo… E todos contentes, nom?

Pouco importa já a falsidade do sistema eleitoral americano, a morte nele do debate ideológico real -que na Europa leva 20 anos em coma-,  a dependência dos dous candidados dos lobbys sempiternos, a inmutabilidade dos verdadeidos círculos do poder económico. Pouco importa que o presidente sainte e o entrante tenham as maos igual de prendidas polas avinças para manter as suas campanhas verdadeiramente mundiais. Ninguem fala já de que nenhum organismo internacional – até a própria fundaçom do ex-presidente Carter- avaliza a limpeza dumhas eleiçons que de se realizar em qualquer outro país fora da órbita do “primeiro mundo ocidental e democrático” seriam consideradas irregulares até níveis inaceptáveis.  As vozes que pedem umha democracia real -e que existem nos próprios EUA- nom podem lugar contra o pride do votante, os berros dos media que levantam as bandeiras dos falsos momentos históricos, a necesidade do individuo de se sentir importante, ainda que for “por poderes”.

Todo o anterior já estava no relato de Asimov. Numhas eleiçons americanas no 2008 onde o voto de cada pessoa nom tem valor, nom existe, é onde só se mantem o voto dum eleitor para que se poda representar o jogo mediático que mantem contente a populaçom. Chame-no MULTIVAC ou o status quo do capitalismo mundial e a democracia burguesa. Asimov retratou há 50 anos as eleiçons americanas de começos de mês: Muito espectáculo, muito pride, muita bandeira de barras e estrelas, nenhuma eleiçom real. Já estava todo decidido, já estava todo calculado.

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