parto – O demo me leve http://odemo.blogaliza.org "Si eu fixen tal mundo, que o demo me leve" Mon, 16 Apr 2012 18:11:04 +0000 gl-ES hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.1 Maternidade revolucionária ou irresponsável? Umha reposta para Noelia Fernández Marqués http://odemo.blogaliza.org/2008/01/30/maternidade-revolucionaria-ou-irresponsavel/ http://odemo.blogaliza.org/2008/01/30/maternidade-revolucionaria-ou-irresponsavel/#comments Wed, 30 Jan 2008 13:20:59 +0000 http://odemo.blogaliza.org/2008/01/30/maternidade-revolucionaria-ou-irresponsavel/ Na nota final da entrada de onde falava da sistemática deriva corrupta da crítica filosófica contra a deriva tecno-científica sob o auspício do Estado. Toda casta de movimentos obscurantistas aproveitam os louváveis esforços de crítica -fora do “todo vale” de Feyerabend- e melhora do processo científico para tentar recuperar um terreno que o mundo racional cuidava iluminado para sempre: Cosmologia, cosmogonia, origem da vida, prevalência do pensamento empírico, evoluçom, natureza da enfermidade, princípios básicos do ordenamento físico do universo… Por baixo das mesmas escusas rançosas de “luta contra o hegemonia e monopólio dumha ciência oficial” religiosos , curandeiros, newageiros e frikis vários minam as bases intelectuais que rematárom coa Idade Obscura.

Umha das últimas vagas cíclicas de crítica construtiva justa conversa em ouveadas pseudo-científicas é reclamaçons de partos “naturais”. Sirva de exemplo o artigo publicado no Novas da Galiza este mês por Noelia Fernández Marqués na secçom de Opiniom, intitulado ‘Maternidade revolucionária’. No jornal soberanista Noelia compila clássicas reclamaçons de “parto natural”, louvor da “sabedoria popular das mulheres”, as bondades do aleite materno e em resumo a maldade do sistema patriarcal, machista e altamente violento que se vive nos nossos hospitais. que procura despojar as mulheres do seu poder (as itálicas som texto original do artigo). Poderia criticar os dous primeiros parágrafos nos que a autora deixa bem claro que os homens nom temos direito algum sobre os nenos dos que aportamos a metade da herança genética, porém prefiro centrar-me só nos aspectos de novo obscurantismo e nom na machofobia confundida com feminismo.

Fernández Marqués cita os trabalhos do obstetra francês Michel Odent -um clássico no movimento do parto natural, e mui ligeiro e tópico nas suas consideraçons- para afirmar que o contacto coa nai no primeiro ano de vida é a causa e origem de todas as características futuras da criança, di Noelia que o obstetra afirma que essa relaçom condiciona absolutamente o seu modo de estar no mundo. Duvido muito que alguém com o mínimo conhecimento dos campos da Psicologia, a Biologia e a Sociologia faga afirmaçons tam categóricas sobre umha origem única de adiçons, doenças mentais, violência […]. Se alguém o duvidava os trabalhos de Odent som estudos estatísticos, e nom experimentais. A linha do artigo continua afirmando que o sistema patriarcal tem consciência disso -o determinismo absoluto derivado do contacto coa nai- e por isso procura interferir no processo fisiológico do parto. [Olho que chega umha falácia] O método som desculpas e argumentaçons “científicas” personificadas na praxe obstetra moderna.[Reparárom? Nom? Sim, repassem… Já? Claro, as investigaçons científicas do obstetra Michel Odent som válidas para louvar a preter-natural uniom nai-criança, mas os obstetras em geral som malignos, patriarcais e malignos].

Depois deste salto lógico que caracteriza as pseudo-ciências -empregar termos e conceitos científicos isolados e desprovidos do seu significado em contexto, unido coa imitaçom estética da Ciência real- regala umha perla na que sem licença vou reproduzir integra:

“Nom é muito complicado explicar porque a obstetrícia véu substituir a sabedoria popular das mulheres, a sua solidariedade e a sua capacidade de trazer bebés ao mundo em perfeitas condiçons sem invadir o corpo e a intimidade das mulheres, tam absolutamente fundamental para conseguir um parto feliz e respeitado ”

Neste parágrafo, que como peça estética nom tem preço, a autora afirma sem rodeios que a assistência das grávidas e as crianças com técnicas próprias da sabedoria popular garante um bom parto -em perfeitas condiçons!- e sem o “intervencionismo” maligno da prática médica clássica. Suponho que considerará que a gigantesca taxa de mortandade da nai ou da criança que se deu durante os séculos de hegemonia da “sabedoria popular” som umha mostra de “perfeitas condiçons”. Seguramente seguirá a mesma linha lógica de quem afirma que a “medicina tradicional chinesa” está cheia de mistérios e que permite a mítica longevidade e saude oriental, sem reparar em que essa longevidade e saude som de facto mitos e que dantes da chegada da patriarcal medicina ocidental as “práticas populares” garantia umha incrível esperança de vida de… 37 anos. Também pode ser que considere que todos os estudos históricos sobre a mortandade no parto -baseados nos registros eclesiásticos de séculos- som parte dumha trama maligna patrocinada polo patriarcado para ocultar que os partos tardo medievais eram umha delícia de mulheres em comunhom coa natureza, sentadas sobre ervas arrecendentes assistidas por umha sabia mulher em conhecimento de todos os segredos do processo. Quadro estático pintado com óleo que se complementa coa também clássica história da perseguiçom da sabedoria popular das mulheres nas caças de bruxas como parte doutra conspiraçom patriarcal.

O problema é que a senhora Fernández teria que procurar umha explicaçom mui boa para obviar no seu artigo que a aplicaçom sistemática da obstetrícia moderna permitiu reduzir e quase eliminar a mortandade da nai e da criança no parto, eliminando a tendência mui natural de um número considerável morrerem no processo. Duvido o muito que poda desbotar com argumentos de “ciência patriarcal” o feito de que a nossa espécie sacrificou na sua evoluçom o comprimento do conduto pélvico em troque dumha postura erguida mui funcional. E por desgraça as mulheres de homo sapiens sapiens nom desfrutam dum parto singelo, sem importar a postura escolhida para o processo.

Se seguimos co texto a autora afirma que : medicalizaçom indiscriminada dos partos, a mutilaçom genital em forma de episiotomia, a violência e o mau trato deixam-nos [as mulheres] indefesas, débeis, despojadas de todo e altamente inseguras. Considerará entom que o diagnóstico pre-natal, o controle das constantes vitais da nai e a criança, a asepsia, as provas peri-parto que detectam enfermidades e problemas motores ou a presença de especialistas em problemas médicos que podem derivar do parto umha medicalizaçom indiscriminada artelhada polo patriarcado para afastara a nai do filho? Considera a episiotomia – umha mutilaçom sim, mas um procedimento médico como pode ser a circuncidaçom por fimose- pior que o desgarro traumático para deixar passo o neno que se pode dar nos “partos naturais”? De verdade está considerando o trabalho e dedicaçom de todas as pessoas profissionais da medicina que ajudam no tránsito violência e mau trato? Que me perdoe Noelia, mas se eu fosse médico ou enfermeiro especializado em obstetrícia nom duvidaria em interpor umha denúncia polo grave insulto contra a honra do meu esforço que essas acusaçons injuriantes representam.

Em resumo, o artigo continua coa demonizaçom dumha prática médica que tem salvado a vida de milhons de mulheres e crianças, que nom viveriam de estarem nas maos da sabedoria popular. Eis onde falem muitas das dignas reclamaçons dum parto mais “natural”. Assino e compartilho qualquer projecto que procure melhorar as condiçons e comodidade das mulheres no parto, mas nom aquelas que baseiam a sua dialéctica em acusaçons obscurantistas de conspiraçom patriarcal contra o “poder feminino”. Concordo com a desejável reduçom do número de cesarianas, que por desgraça constituem umha soluçom quer mais segura quer mais “fácil” para um quadro de pessoal médico muitas vezes saturado. E quando se afirma que existe umha programaçom egoísta dos partos em funçom do horário pessoal cumpre perguntar se nom se programam todas as operaçons em funçom de algo menos negativamente emocional – o “médico egoísta”… e machista-patriarcal – como som os recursos finitos dum hospital.

Embora a senhora Noelia Fernández quer umhas melhores condiçons de seguridade no parto -e porque nom? Possibilidade do parto em cadeira- melhor seria que reclamasse mais orçamento e pessoal de profissionais da obstetrícia. E nom rematar o seu artigo criticando às mulheres que tenhem cabeça suficiente para preferir um parto médico em um ambiente que nada tem de violento, mas de seguro para elas e os seus filhos. Imitando a demagogia iluminada que estrutura o seu artigo eu poderia perguntar se as mulheres que escolhem parir em ambiente cálido sem intervençons desnecessárias querem negar os seus filhos a seguridade e a assistência médica para os seus filhos? E para rematar umha frase da que gosto muito nestas disputas: Se querem parto naturalcumpre-lhes lembrar que o natural no parto era morrer.

[Que me fuzilem em um, dous, três….]

FERNÁNDEZ MARQUÉS, Noelia. ‘Maternidade revolucionária”, in Novas da Galiza, (nº62, de 15 de Janeiro de Fevereiro de 2008), Compostela-Galiza, pág. 2.

HARRIS, Marvin. Cows, Pigs, Wars, and Witches: The Riddles of Culture. Random House, 1974.
(Este é um texto divulgativo de Harris que podedes topar facilmente. O recomendável seria algum dos seus artigos científicos. Outro dia compilo mais)

Sobre Michel Odent nom recomendo nada,com umha rápida procura em internet podedes observar que essa “reperência” é só autor de livros de “auto-ajuda”….

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