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A luta das palavras: O passo atrás de Ana Mato

Só queria fixar umhas reflexons sobre o deslize intencionado da nova Ministra Ana Mato onde qualificava o último -mas por desgraça nom derradeiro- assassinato dumha mulher pola sua parelha como “violência na esfera doméstica” (violencia en el ámbito doméstico no castelhano original) em troques da expressom empregada até o de agora polas autoridades: violência de gênero, violência machista, violência sexista.

Ainda que para alguns os matizes importantes entre ambas denominaçons som bem conhecidos -assim como a teórica de género feminista que denunciou desde o começo a cística origem social dessa violência- umha boa parte da sociedade ignora-os e trata como sinónimo. E depois está a minoria com poder da senhora Mato e os adlateres na ultradireita e no Opus Dei que, sendo conscientes da semántica, empregam umha denominaçom sobre a outra com terríveis intereses últimos. Nós sabemos que a violência machista é exercida sobre as mulheres polo feito de elas serem mulheres. Polo lugar desigual -inferior- que a organizaçom social patriarcal tem asignado para elas: inferior poder, inferior capacidade económica, inferiores direitos, inferiores possibilidades para acadar autonomia pessoal sem dependerem doutras pessoas. As mulheres som sitas num plano de poder inferior ergo som vítimas preferidas para a violência. E como ninguém, por mui machucado que esteja quer ficar em desigualdade a violência que procura “lembrar à mulher o seu lugar” é preceptiva para a supervivência dessa organizaçom social. Mas todo isto já o sabemos, nom?

O que fica claro é que os termos “violência machista” e similares marcam a origem, a causa injustificável da violência. Informam à sociedade de que nom há desculpa possíbel em cada assassinato, e que estes crimes nom som isolados pois partilham umha mesma origem nessa semente de desigualdade. Por isso a declaraçom de Pequim de 1995 consagrau essa denominaçom num senso amplo que cingue toda violência que sofre a mulher por ser mulher (isso inclui, p.e. as violaçons sexuais de todo tipo). Desta denominaçom abrangente esqueceu no seu momento a Lei Integral contra a Violência de Género de 2004, que ficou na violência no contexto “afectivo” -umha definiçom de de afectividade retorta, como mínimo-.

Estas som liçons que nom ensina ainda a nossa sociedade com normalidade, e assim muitos tivemos que aprender que -ainda que condenáveis e perseguíveis- as violências entre pessoas cercanas ou com relaçons afectivas nom têm a mesma origem estrutural e nom podem ser classificadas igual que a violência contra as mulheres. Fazer isso leva a empregarmos ferramentas de luta contra estes fenômenos que nom estám otimizadas. A violência – e a violência sexual- contra as crianças está engendrada por outra supeditaçom -a da semente sob o paterfamilias- e ainda que se pode cruzar com a sexista tem umhas motivaçons diferentes. A violência entre parelhas do mesmo sexo pode estar alimentada por uns roles de desigualdade entre os indivíduos, mas nom estam refrendados por umha desigualdade sistémica.

Os termos “violência na esfera familiar” ou “conjugal” ou “doméstica” nom som termos abrangentes como querem vender alguns think-tank conservadores (e sim, acreditem: há quem diz que som melhores porque incluim a “homens maltratados” e “parelhas do mesmo sexo”) realmente som termos que procuram ocultar a origem última do problema. Ademais, convertem em absolutas umhas circunstâncias que nom sempre acontecem no cenário da violência: nem sempre é umha família -esse étimo tam amado pola direita como peça imaculada e articuladora da sua ficçom social- nem som conjugues nem há um fogar para que seja doméstica.

Podemos agradecer que polo de agora a ministra nom decidiu empregar o velho idioma de “violência passional”. Ainda está no estadio nominal da ocultaçom, da reduçom, pronto chegará esse o da justificaçom e o de “algo faria”, “cada parelha é um mundo”, “ela sempre o fazia saltar”. É por isso, polo conhecimento prévio dos difíciles passos que levarom até o reconhecimento -polo que vemos frágil- da teoria de género polo que essas palavras de Ana Mato saltarom todos os alarmes. Sabemos cara onda leva esse caminho, cara onde quer retraçar. Assim a escolha das palavras nom é inocente, é fundamental polas ideias que as animam e que se percebem trás delas. Com essas palavras nomeamos a realidade e explicar a problemática às pessoas que ainda nom estam formadas. Trás da denominaçom de violência de género há toda umha liçom para ensinarmos e aprendermos. Trás das denominaçons de Ana Mato, se calhar está a liçom doutra Ana -esta Botella- que a nova presidenta da câmara municipal de Madrid escrevia há uns anos no prólogo dum livro infantil:

“La Cenicienta es un ejemplo para nuestra vida por los valores que representa. Recibe los malos tratos sin rechistar, busca consuelo en el recuerdo de su madre.”