Shrin Ebad – O demo me leve http://odemo.blogaliza.org "Si eu fixen tal mundo, que o demo me leve" Mon, 16 Apr 2012 18:11:04 +0000 gl-ES hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.1 “Nobel da Guerra para os senhores do Nobel da Paz” artigo de Domenico Losurdo http://odemo.blogaliza.org/2010/10/17/nobel-da-guerra-para-os-senhores-do-nobel-da-paz-artigo-de-domenico-losurdo/ http://odemo.blogaliza.org/2010/10/17/nobel-da-guerra-para-os-senhores-do-nobel-da-paz-artigo-de-domenico-losurdo/#comments Sun, 17 Oct 2010 12:25:01 +0000 http://odemo.blogaliza.org/?p=1968 Após ler este artigo de Domenico Losurdo em Voltairenet decidi fazer umha traduçom para português padrão.

“Nobel da Guerra” para os senhores do “Nobel da Paz

por Domenico Losurdo.

Um duro debate deflagrou na Austrália nas últimas semanas. Num artigo publicado no Quartely Essay e do que alguns traços foram avançados no The Australian, Hugh White emitiu um aviso de chamada sobre uma série de processos actualmente em execução.

Ante a ascensão da China, Washington está a responder com a tradicional política de “containment ( que pode ser traduzido como política de contenção), mediante o ameaçante fortalecimento do seu potencial e alianças militares.

Como resposta, Pequim não se deixa intimidar nem “conter”. Tudo isto pode resultar numa polarização das alianças opositoras na Ásia e dar origem a um “risco real e crescente de grande guerra e até de guerra nuclear”

O autor deste aviso está longe de ser um ninguém. Está no seu curriculum uma longa carreira como analista em questões de defesa e política externa e num certo sentido é parte do “establishment” intelectual. Não por acaso, seu artigo tem provocado um debate nacional, do que também participou a primeira-ministra, Julia Gillard, que reafirmou a necessidade duma relação privilegiada com os Estados Unidos.

Mas os setores extremistas da Austrália têm ido mais longe como dizer que o país tem de se compromete com umha Grande Aliança das democracias contra os déspotas de Pequim,. Não há dúvida alguma. A ideologia da guerra contra a China é baseada numa ideologia existente por muito tempo que justifica e até mesmo celebra as agressões militares e guerras do Ocidente em nome da “democracia e os direitos humanos”.

E é agora que é atribuído o “Prémio Nobel da Paz” para o “dissidente” chinês Liu Xiaobo. Esse movimento não poderia acontecer em melhor hora, especialmente devido à ameaça de guerra comercial contra a China, desta volta proclamada de jeito aberto e solene pelo Congresso dos EUA.

China, Irã e Palestina

Entre os primeiros a se congratular com a selecção dos senhores de Oslo foi a Sra. Shirin Ebadi, que imediatamente contribuiu acrescentou a sua parte:

“A China não é apenas um país que viola os direitos humanos. É também um país que apoia e ajuda muitos regimes que os violam, como no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte, Ira…”

Digamo-lo novamente: a contribuição para a ideologia da guerra travada no nome da “democracia” e os “direitos humanos” não pode ser mais clara, e a declaração de guerra comercia é evidente.

Então, por que foi premiada com o “Prémio Nobel da Paz” em 2003 Shirin Ebadi? Foi dado o prémio a uma mulher cuja visão das relações internacionais é maniqueísta. Em sua lista de violações dos direitos humanos não têm lugar para Abu Ghraib ou Guantanamo, ou para o ataque e a guerra iniciada sob falsos pretextos e mentiras, ou o uránio empobrecido, ou para os embargos com características genocidas que desafiam a maioria dos membros da ONU e da comunidade internacional.

Quanto à “maior exploração dos trabalhadores” na China, é claro que Shrin Ebadi fala sem saber. O grande país asiático tem salvado centenas de milhares de homens e mulheres da fome a que foram condenadas, em primeiro lugar, pela agressão e o embargo proclamado por Ocidente.

Estes dias pode-se ler em toda imprensa que os salários dos trabalhadores estão a progredir a um rimo acelerado na China. Em qualquer caso, embora o embargo contra Cuba só afeita os habitantes daquela ilha, um possível embargo com a China poderia causar uma crise económica global, com consequências devastadoras para as massas ocidentais, e teriam que dizer adeus os direitos humanos (ou pelo menos os direitos de ordem económica e social).

Não há dúvida. A mulher que recebeu o “Prémio Nobel da Paz” em 200, é uma ideóloga da guerra, medíocre e provinciana.

Talvez quis o prémio recompensar uma activista que, não internacional, mas pelo menos dentro do Ira afirma ser uma defensora dos direitos humanos? Se for essa a intenção dos senhores de Oslo, teriam de dar o prémio Nobel a Mohamed Mosadegh, o homem que, no início dos anos 50, se comprometeu a construir um Ira democrática, mas, por se atrever a nacionalizar a indústria petrolífera foi derrubado por um golpe organizado pela Grã-Bretanha e os Estados Unidos, os mesmos países que hoje são apresentados como campeões da “democracia” e os “direitos humanos”.

Será que os senhores de Oslo tentaram recompensar algum bravo opositor da feroz ditadura do Xá, ditadura que tinha o apoio dos habituais mas improváveis campeões da causa da “democracia” e os “direitos humanos”? Por que, então deram o “Prémio Nobel da Paz” a Shirin Ebadi em 2003?

Naquele tempo, enquanto o martírio interminável do povo palestiniano estava a se agravar ainda mais, já se rascunhava claramente a cruzada contra o Irã. Atribuir o reconhecimento a um militante palestino poderia ter sido um verdadeiro contributo para a causa da distensão e da paz no Oriente Médio. No entanto, os senhores de Oslo decidiram recompensar uma militante que desde então tem continua a alimentar o lume da guerra contra o Irã, e que agora faz o mesmo contra a China.

Após a consagração e a transfiguração de Liu Xiaobo, Obama rapidamente interveio e pediu a libertação imediata do “dissidente”.Por que não liberar, entretanto, os detidos sem julgamento em Guantánamo?

Ou por que não, pelo menos, pressionar pela libertação de muitos palestinos, que às vezes mal sao adolescentes, detidos por Israel, como reconhece até a imprensa ocidental, no seu terrível sistema penitenciário?

Os senhores de Oslo, os EUA e a China

Obama é outro caso de “Prémio Nobel da Paz” que traz bastantes características únicas. Quando lhe foi entregado no ano passado, declarara que tinha intenção de reforçar a presença militar dos EUA e da Nato no Afeganistão e aumentar as operações militares.

E depois de receber o apoio mediático, pois isso é o prestigioso prémio que recebeu em Oslo, Obama foi fiel à sua palavra. Com ele som mais numerosos que na época de Bush os esquadrões da morte que desde o céu “eliminam” “terroristas, potenciais “terroristas” e suspeitos de “terrorismo”.

Helicópteros e aviões que agem como esquadrões da morte são também muitos no Paquistão, assim como som muitas as vítimas que eles causam. A indignação é tão grande e estendida que até os governantes de Cabul e Islamabad sentem-se compelidos a elevar protestos ante Washington. Mas Obama não se impressiona. E continua a exibir o seu “Prémio Nobel da Paz”!

Nos últimos dias, filtrou-se uma notícia arrepiante. Há militares dos EUA no Afeganistão que matam civis inocentes por diversão e conservam partes do corpo das suas vítimas como uma lembrança da caça.

O governos dos EUA de imediato correu para bloquear a divulgação de detalhes e, acima de tudo, as fotos.

Chocada, a opinião pública dos EUA e internacional poderia ter decidido a pressionar par ao fim da guerra no Afeganistão. Mas para poder continuar essa guerra, e tornar ela ainda mais dura, o “Prémio Nobel da Paz” preferiu atacar um golpe à liberdade de imprensa

Também podemos fazer uma observação geral. Durante o século XX, os EUA foram o país que mais tem visto os seus estadistas receber o “Prémio Nobel da Paz”.

  • Theodore Roosevelt, o mesmo que considerava que o único índio “bom” era um índio morto
  • Henry Kissinger, o protagonista do golpe do Chile e da guerra do Vietname;
  • Kames Carter, o promotor do boicote dos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, e da proibição de exportações de trigo para a URSS nos tempos da intervenção no Afeganistão dos “freedom fighters” muçulmanos.
  • Barack Obama, que agora actua contra esses mesmos “freedom fighters” -convertidos entretanto em terroristas- e emprega contra eles maquina de guerra monstruosa.

Vamos ver agora, por outro lado, como é a posição dos senhores de Oslo quando vem para a China. Esse país, que representa um quarto da Humanidade, não esteve envolvido em guerras nos últimos 30 anos e tem promovido o desenvolvimento económico que através da eliminação da pobreza e da fome para centenas de milhões de homens e mulher deu-lhes acesso aos direitos económicos e sociais.

Mas os senhores de Oslo só se dignaram a ter em conta este país apra três prémios a três “dissidentes”

  • em 1989, recebeu o “Prémio Nobel da Paz” o 14º Dalai lama, que deixou a china há 30 anos;
  • em 2000, recebeu o Prémio Nobel de Literatura Gao Xingjan, escritor que daquela já era cidadão francês;
  • em 2010 recebe o “Prémio Nobel da Paz” outro dissidente que, depois de ter vivido nos EUA e leccionar na Universidade de Colúmbia, retornou para china “rapidamente” para participar da revolta (certamente não pacífica) da Praça Tiananmen.

Ainda hoje, o personagem fala de seu povo como segue:

“Nós, Chineses, tão brutais”[3]. Assim para os senhores de Oslo a causa da paz é representada por um pais (Estados Unidos) que acredita em estar investido coma missão divina de liderar o mundo, que tem instalado e continua a instalar bases militares no planeta todo.

Mas na China, que não tem nenhuma base militar no estrangeiro, um pais com umha antiga civilização e que, após um século de humilhação e miséria imposta pelo capitalismo está a recuperar a sua antiga glória, os representes da causa da paz – e da cultura – são apenas três “dissidentes” que já não têm muito a ver como o povo chinês e que vêem no Ocidente o único farol que ilumina o mundo.

O que estamos a ver na política dos senhores de Oslo é o ressurgimento do velho colonialismo e da arrogância imperialista.

Enquanto vozes inquietas ressoam na Austrália sobre os riscos da Guerra, em Oslo, é dado um novo brilho numa ideologia bélica desastrosa e de terrível memória:

lembre-se que as guerras do ópio foram elogiadas na época por J.S. Mill como um contributo para causa da “liberdade” do “comprador” ademais da do vendedor (de ópio), enquanto Tocqueville apresentou-nas como uma contribuição à cauda da luta contra a “inércia” da China.

Não são hoje muito diferentes os sloganes que agita a imprensa ocidental, a imprensa, aliás, que não cansa de denunciar o eterno despotismo oriental. Por mui nobres que sejam as suas intenções, o comportamento real dos senhores do “Prémio Nobel da paz” hoje só merece o Nobel da Guerra.

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