Terceiro Olho – O demo me leve http://odemo.blogaliza.org "Si eu fixen tal mundo, que o demo me leve" Mon, 16 Apr 2012 18:11:04 +0000 gl-ES hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.1 Lobsang Rampa, o encanador de Plymton e a boa imprensa http://odemo.blogaliza.org/2010/02/09/lobsang-rampa-o-encanador-de-plymton-e-a-boa-imprensa/ http://odemo.blogaliza.org/2010/02/09/lobsang-rampa-o-encanador-de-plymton-e-a-boa-imprensa/#comments Tue, 09 Feb 2010 16:55:03 +0000 http://odemo.blogaliza.org/?p=1768 Embora a história de Cyril Henry Hoskins é um clássico dos calotes espirituais descobertos e denunciados há décadas por umha boa investigaçom, ainda hoje sobrevive no imaginário místico de muita gente. Para mostra hoje amanhá, num descanso do estudo da biblioteca, pudem ver como umha rapariga nova levava em empréstimo o livro co que começou a história que vos quero contar.

Umha “biografia” de sucesso

Em 1956 a editora americana Doubleday and Company ¹-responsável na sua alongada história de publicar obras de Anne Rice, Murakami ou Bradbury- e a inglesa Secker & Warburg ² sacavam do prelo um livro intitulado The Third Eye (O terceiro olho). Apresentava a obra como umha autobiografia dum monge budista chamado Tuesday Lobsang Rampa. O livro narrava a educaçom espiritual dum filho da nobreça tibetana, adestrado num mosteiro budista durante o reinado do 13º Dalai Lama no começo do século XX. A criança demonstra rapidamente umha “iluminaçom” especial, memorizando o conteúdo do Kangyur ² com poucos anos. O personagem percorre um caminho teológico e político, implicado nos eventos prévios à invasom do Tibete pola China.

Entre os factos mais destacáveis do livro está umha cerimónia de trepanaçom cirúrgica na que os monges abrem um buraco na fronte de Lobsang Rampa para lhe outorgar a capacidade de ver as “auras” e intençons das pessoas. Como se introduze na corte do Dalai Lama e adverte a Thubten Gyatso das intençons reais dos emissários chineses. O livro também relata um encontro co célebre tibetólogo Sir Charles Alfred Bel – que Rampa descreve com condescendência-, Yetis ou umha múmia do próprio protagonista numha anterior encarnaçom, monges voando em zorras, gatos místicos que protegiam as ermitas dos ladrons e viagens místicas onde falava da “corda dourada” que une o corpo físico e o espírito. Noutra cerimónia revelam-lhe que outro planeta impactou a Terra em tempos primordiais, sendo responsável da elevaçom geográfica do Tibete.

O editor da obra afirmou na publicidade que figera todo o possível para autentificar o manuscrito, mas que “nom chegara a umha conclusom segura”. Porém a promoçom oficial esqueceu esses detalhes e com rapidez converteu-se numha das obras mais vendidas do ano. Em pouco tempo estava nas prateleiras de todos os precursores dos movimentos “alternativos” dos anos 60 e citado umha e outra vez em todas as publicaçons místicas e para-anormais da época.

As investigaçons de Heinrich Harrer e Clifford Burgess

Desde o primeiro momento os experto em cultura tibetana dixeram que a obra era umha fraude. Que pouco ou nada do que reflectia o livro tinha que ver com as doutrinas reais do budismo. Um grupo de estudosos decidiu começar umha investigaçom académica e policial sobre a fraude. No grupo estava incluído Heinrich Harrer (foto esquerda), conhecido atleta e geógrafo austríaco e autor de Sete anos no Tibete, amigo pessoal do 14º Dalai Lama e um dos ocidentais que mais contacto tivera com a vida na Lhasa prévia à ocupaçom chinesa. Também chamou a atençom de Fra’ Andrew Bertie, historiador e Soberano Príncipe e Grande Mestre da Ordem Militar de Malta até 2008, por citar só algum.

Heinrich Harrer (direita), por médio do seu próprio editor Hart–Davis, tentou concertar umha reuniom com o monge, que também se afirmava doutor de medicina pola Universidade de Tchong-k’ing. A resposta que obtivo foi que o místico estava em retiro espiritual após o grande sucesso da sua obra, preparando umha continuaçom. Ante essa contrariedade o grupo contratou os serviços dum detective de Liverpool, Clifford Burgess.

Este nom tardou em localizar o verdadeiro autor: Cyril Henry Hoskins. Era o filho dum encanador de Plympton, Inglaterra. Depois de trabalhar uns anos co pais entrou numha empresa de fabricaçom de material cirúrgico e começou a ter gosto polo ocultismo e mudou o seu nome para Kuan-suo em 1948, nom sem antes pelar a cabeça e deixar crescer a barba. Pouco depois foi despedido da empresa e vagou por vários dos ambientes místicos da ilha. Depois mudou-se para Irlanda onde desligou por completo da sua família e amigos, casou com umha enfermeira também interessada na parafernalia ocultista e escreveu a obra que o levaria à fama. Em nengum momento até entom saiu das Ilhas. E foi alá onde foi confrontado por Burgess, que quijo saber como calhava o seu passado como encanador e as suas supostas ensinanças em Lhasa. A resposta de Cyril foi que ele nom era mais essa pessoa, que em 1947 fora contactado polo espirito do monge -morto já- que lhe explicara que tinha necessidade de continuar com a sua missom de proteger o Tibete, agora desde a Inglaterra. Murada o nome seguindo as suas ordens e desligara de amigos e família para “fazer mais singela a transiçom de espíritos”. Depois dum acidente com contusom cerebral incluída – em palavras do próprio Cyril/Lonbsan umha caída desde umha arvore mentres tentava fotografar um moucho (sic)- o espírito do encanador marchou cara as alturas estelares -canso da sua vida- e o monge budista tomou o controle . A publicaçom da novela -e das continuaçons- era parte da la labor proselita que tinha como missom.

Cando menos era original. Claro que quando foi confrontado com Harrer, outros estudosos fluentes em tibetano também foi rápido para dizer que “tinha um bloqueio mental para nom falar tibetano que era fundamental para o sucesso da transmigraçom”.

As conclusons da investigaçom de Burgess publicadas no Daily Mail em Fevereiro de 1958. O artigo tivo muita difusom, e reduziu bastante as vendas do calote de Cyril, mas nom impediu que as suas seguintes obras -que continuavam com a história de Rampa-tivessem vendas suficientes como para permitir-lhe viver do conto.

Quando os expertos falam mal… passamos deles

Um feito curioso é que duas editoriais prestigiosas publicassem como legítima umha obra tam fraudulenta. De facto o editor inglês enviou cópias do manuscrito a várias eminências sobre o Tibete, e todas respostaram que página por página o livro contradizia tanto a teologia budista como a história conhecida e registrada dessa época no Tibete.

Entre os muitos erros estava a interpretaçom literal do conceito budista do terceiro olho como umha operaçom de trepanaçom ou falar da “corda dourada” nas viagens espirituais, um conceito místico mui velho sim… mas do ocultismo e misticismo exclusivamente ocidental. Tampouco é verdade que os novícios budistas tenham que decorar o Kangyur, como o Coram nas tradiçons islamitas, tanto polo seu exagerado volume como que é umha obra de consulta pontual que nom se emprega como base de doutrina. Ou que os tibetanos nom tomassem como nome o do dia do seu nascimento (Disso “Tuesday”). Que Sir Charles Bel nom visitara Lhasa até 1920, dez anos depois do passamento do 13º Dalai Lama era um detalhe menor.

O número de especialistas que recomendaram a Secker & Warburg nom publicar a obra – polo bem da sua reputaçom como editora séria- ou cando menos deixar claro que era pura ficçom é interminável: Ademais dos já citados Heinrich Harrer, Fra’ Andrew Bertie também falaram Marco Pallis -figura senlheira dos estudos tibetanos- ou até Hugh E. Richardson ! Até Leopold Fischer, antropólogo e sanscritólogo austriaco que se converteria ao hinduísmo advaita sob o nome Agehananda Bharat afirmava numha carta à sociedade de estudos tibetanos em 1974:

“I was suspicious before I opened the wrapper: the “third eye” smacked of Blavatskyan and post-Blavatskyan hogwash. The first two pages convinced me the writer was not a Tibetan, the next ten that he had never been either in Tibet or India, and that he knew absolutely nothing about Buddhism of any form, Tibetan or other. The cat was out of the bag very soon, when the “Lama”, reflecting on some cataclysmic situation in his invented past, mused, “for we know there is a God.” A Buddhist makes many statements of a puzzling order at times, and he may utter many contradictions; but this statement he will not make, unless perhaps — I am trying hard to find a possible exception — he is a nominal Nisei Buddhist in Seattle, Washington, who somehow gets into Sunday school at age eleven and doesn’t really know what he is talking about.

Every page bespeaks the utter ignorance of the author of anything that has to do with Buddhism as practiced and Buddhism as a belief system in Tibet or elsewhere. But the book also shows a shrewd intuition into what millions of people want to hear. Monks and neophytes flying through the mysterious breeze on enormous kites; golden images in hidden cells, representing earlier incarnations of the man who views them; arcane surgery in the skull to open up the eye of wisdom; tales about the dangers of mystical training and initiation — in a Western world so desperately seeking for the mysterious…

Nom só demostrava ignorância total dos conceitos budistas mais simples, aliás misturava conceitos da Theosofia victoriana mais pobre!

Ainda assim, depois de todos esses avisos de verdadeiros expertos… a publicaçom saiu. O que nom di muito das editoras da época, predecessores das actuais que nom tenhem escrúpulos em publicar panfletos obcurantistas dos Rampa de turno.

Lobsang-Cyril depois do escândalo: Há quem acredita em qualquer cousa

A começos dos 70 Cyril emigro ao Canadá. Mantivo até a sua morte a sua versom da história. Tivo tempo de escrever 30 livros mais, todos eles no campo do “oculto”. Continuou as aventuras da sua anterior encarnaçom e até tivo oportunidade narrar a sua visita a Venus (My Visit to Venus) acompanhado de extraterrestres budistas. Só os levitantes monges da Terra podiam aceder a essas naves, pois “estavam feitas de antimatéria”. Mas se calhar a sua obra mais delirante foi <em>Living with The Lama</em> segundo ele , ditada polo seu gato siamês.

Nos anos seguintes tivo tempo de ser tarotista, vidente, ufólogo, medium… até o seu passamento em 1981. Eu acredito firmemente em que nalgum momento o seu espirito topará novo corpo -se nom o fixo já- para continuar a escrever literatura-lixo.

Por mui engraçada que resulta a história do lama Lobsang Rampa quando se conhecem todos os dados nom podemos esquecer que a sua obra foi co-responsável da onda de misticismo que aniquilou quase por completo a capacidade de pensamento logico dumha geraçom do mundo ocidental durante toda a década dos 60. Que a dia de hoje ainda se vende a sua obra como real, como guia espiritual, que dúzias de páginas web defendem a sua figura, e que caloteiros disfarçados de místicos – ou ainda pior místicos que acreditam no calote original- seguem a empregar os delírios de pobre tolo de Cyril.

Pessoalmente aguardo que a rapariga que levou o livro esta manhá da biblioteca fixo-o para botar uns risos, com conhecimento da natureza da obra, e nom como parte da sua “formaçom espiritual”.

Deixem-me sonhar.

Notas:
¹ Doubleday foi durante muitos anos a editora em língua inglesa com maior tiragem. Hoje forma parte do gigante editorial Random House. Alguns dos leitores “mui dos noventa” lembrará com carinho como Elaine, da sitcom Seinfeild. dizia que o seu trabalho ideal seria nessa editorial.

² Sim, a de Orwell, Boris Souvarine e Simone de Beauvoir. E hoje também parte de Random House.

³ O Kangyur (As Palavras transcritas) é um cânone difuso de textos sagrados budistas formado por traduçons do sânscrito das palavras de Siddharta Buda e umha miríada de tratados, comentários, escritos doutrinais e demais. Nom existe um índice claro de que livros inclui, e depende muito de cada versom do budismo existente.

Ou 關索, nome chinês dum dos guerreiros da épica História dos Três Reinos (三国演义) de Luo Guanzhong. Umha das obras mestras da literatura histórica mundial escrita no século XIV, e como tanta literatura chinesa mui desconhecida em ocidente. Kuan-suo era um dos guerreiros do Reino de Shu, o mais ocidental dos três. Cada menos é um nome “curioso” para um monge budista tibetano.

A ordem dos acontecimentos nom fica clara em nengumha fonte. Há quem di que o golpe foi no 47 quando ainda vivia em Inglaterra e foi o começo do processo de “conversom” no lama. Isso sim, todas as versons coincidem que a arvore era um abeto.

“O derradeiro inglês em Lhasa”. Diplomático e estudante da cultura tibetana que foi literalmente o último inglês -e representante do governo- em abandonar a cidade antes da invasom chinesa.

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